Natal milionário: Prefeitura de Pato Branco prevê mais de R$ 4 milhões em licitações enquanto saúde, asfalto e obras enfrentam cobranças

Natal milionário: Prefeitura de Pato Branco prevê mais de R$ 4 milhões em licitações enquanto saúde, asfalto e obras enfrentam cobranças

Enquanto moradores de Pato Branco cobram melhorias no atendimento à saúde, reclamam das condições do asfalto e aguardam a conclusão de obras públicas, a Prefeitura, comandada pelo prefeito Géri Dutra, prepara o Natal de 2026 com licitações que ultrapassam R$ 4,1 milhões em valores estimados. O levantamento realizado pelo Portal Verdades identificou seis processos destinados à aquisição de materiais, decoração, serviços e atrações natalinas.

Os números foram extraídos de editais publicados pela própria administração municipal. A soma chega a R$ 4.148.362,80, mas representa o valor previsto nos procedimentos analisados, e não o total efetivamente gasto. Parte das licitações envolve registro de preços para compras futuras e eventuais, enquanto outras tratam de serviços específicos. O levantamento ocorre em um momento em que problemas na saúde, buracos nas vias públicas, a situação da Avenida Frei Policarpo e o Terminal Urbano continuam motivando cobranças à gestão.

Valores estimados
R$ 4,14 mi
Seis licitações identificadas
Maior pregão
R$ 3,31 mi
Materiais natalinos
Procedimentos
6
Editais de 2026 analisados
Levantamento documental

Onde estão os mais de R$ 4 milhões previstos para o Natal?

O maior valor aparece no Pregão Eletrônico nº 36/2026, que prevê até R$ 3.313.250,04 para aquisição de materiais de iluminação, tecidos, aviamentos, ferragens, marcenaria, tintas, acabamentos e ornamentos destinados principalmente ao desfile de abertura do Natal.

Além desse procedimento, a Prefeitura publicou licitações para decoração de carros alegóricos, montagem da Casa Temática na Praça Presidente Vargas, apresentações de banda natalina, programação de iluminação cênica e serviços de maquiagem e penteados para os participantes.

Licitações identificadas — Natal 2026
Pregão 36/2026Materiais e ornamentos
R$ 3.313.250,04
Pregão 61/2026Decoração da Casa Temática
R$ 194.799,71
Pregão 60/2026Decoração de carros alegóricos
R$ 171.288,38
Pregão 53/2026Banda musical natalina
R$ 163.068,00
Pregão 49/2026Programação da iluminação cênica
R$ 160.666,67
Pregão 62/2026Maquiagens e penteados
R$ 145.290,00
Total estimadoR$ 4.148.362,80

Fonte: editais municipais de 2026. A soma não corresponde ao valor contratado ou pago e não constitui o orçamento integral do evento.

Entre as previsões estão 24 apresentações de banda musical, cujo edital de R$ 163.068,00 possui aviso de suspensão publicado no site municipal. Outro procedimento prevê 900 serviços de maquiagem e penteados ao longo de cinco dias, por até R$ 145.290,00.

Já a contratação de programação da iluminação cênica possui registro de contrato de R$ 157.200,00 com a empresa TDA Engenharia Ltda., valor inferior à estimativa inicial do edital. Mesmo nesse caso, o contrato não equivale a pagamento realizado.

A apuração ainda não dispõe de um balanço completo dos empenhos, liquidações e pagamentos de todos os procedimentos. Por isso, não é possível afirmar que a Prefeitura tenha efetivamente desembolsado R$ 4,1 milhões.


Saúde pública

Enquanto o Natal recebe atenção, pacientes continuam cobrando atendimento

O contraste aparece em uma das áreas mais sensíveis da administração municipal: a saúde. Reclamações sobre tempo de espera, consultas e acesso aos serviços já foram objeto de reportagens do Portal Verdades, incluindo o relato de um pai que afirmou ter aguardado atendimento pediátrico na UPA por várias horas, em agosto.

Os questionamentos convivem com números expressivos apresentados pela própria Prefeitura. Conforme a prestação de contas divulgada em setembro, o Fundo Municipal de Saúde havia empenhado R$ 184,6 milhões entre janeiro e agosto de 2026, com 69.121 atendimentos individuais realizados na Atenção Primária entre maio e agosto.

A administração também informou que todas as equipes da Atenção Primária receberam classificações positivas em avaliação do Ministério da Saúde. Ao mesmo tempo, reconheceu um problema relevante: foram 6.768 ausências em consultas agendadas na Atenção Básica entre maio e agosto, situação que, segundo a Secretaria de Saúde, compromete o aproveitamento das vagas disponíveis.

Os dados mostram que há recursos destinados à saúde e serviços em funcionamento, mas também desafios de atendimento e organização. A cobrança dos usuários permanece: os investimentos anunciados precisam se traduzir em respostas concretas para quem depende do sistema público.


Infraestrutura urbana

Buracos nas ruas e interrupção do tapa-buracos expuseram dificuldades de manutenção

A conservação das ruas é outro tema recorrente nas reclamações de moradores. Em agosto, o Portal Verdades revelou que a Prefeitura havia suspendido temporariamente a operação tapa-buracos após ficar sem o material necessário à execução dos serviços.

Na ocasião, a administração atribuiu o problema à impossibilidade de continuar adquirindo material do fornecedor que atendia o Município. A paralisação atingiu serviços urbanos e rurais. O episódio expôs dificuldades de continuidade do fornecimento e levantou questionamentos sobre o planejamento da manutenção viária.

A interrupção registrada em agosto não significa que os serviços permaneçam totalmente paralisados em outubro. Entretanto, as cobranças por conservação continuam documentadas. Em 13 de outubro, uma indicação apresentada na Câmara pediu recuperação asfáltica urgente na entrada norte do município, nas proximidades do viaduto.

Para moradores que enfrentam problemas diariamente nas ruas, a discussão vai além de novas obras anunciadas: envolve a capacidade de manter em condições adequadas a infraestrutura já existente.


Avenida Frei Policarpo

Projeto de transformação contrasta com buracos e espera pela revitalização

A Avenida Frei Policarpo, antiga BR-158, representa outro exemplo desse contraste entre grandes projetos e necessidades imediatas. Municipalizada em novembro de 2025, a via passou a integrar o planejamento de uma ampla transformação urbana, mas motoristas continuam cobrando melhorias no pavimento.

Em reportagem publicada em 13 de outubro, o Portal Verdades percorreu a avenida e registrou trechos com buracos e irregularidades no asfalto. O problema já havia sido levado à Câmara Municipal por meio de requerimentos apresentados em março e setembro, solicitando reparos e melhorias na sinalização.

A Prefeitura informou, em atualização divulgada em outubro sobre o programa Acelera, Pato Branco, que o primeiro trecho da revitalização havia sido licitado e o segundo permanecia em processo licitatório. Portanto, existem providências administrativas em andamento, embora a transformação definitiva ainda não tenha sido entregue.

A questão é como o Município pretende garantir a manutenção da avenida durante a execução de um projeto que, pela própria dimensão, dependerá de etapas e prazos prolongados.


Obras e promessas

Terminal Urbano ainda sem passageiros após 21 meses de gestão

O Terminal Urbano de Pato Branco também permanece entre os exemplos de estruturas públicas aguardadas pela população. Durante o período que antecedeu a eleição municipal de 2024, Géri Dutra apresentou a abertura do terminal como uma das primeiras medidas que adotaria na Prefeitura.

Entretanto, em outubro de 2026, após aproximadamente 21 meses de mandato, o espaço ainda não estava em funcionamento para o transporte de passageiros. Conforme reportagem publicada pelo Portal Verdades em 22 de outubro, o prefeito assinou um Termo de Ajustamento de Gestão com o Tribunal de Contas do Estado do Paraná para estabelecer providências necessárias à operacionalização da estrutura.

O acordo prevê medidas de adequação e acompanhamento pelo TCE-PR, com possibilidade de sanções em caso de descumprimento. Parte das dificuldades técnicas é anterior à atual administração, mas a promessa de abertura no começo do mandato mantém o assunto entre as cobranças dirigidas ao prefeito.


Patrimônio municipal

Prefeitura já declarava possuir 96 árvores e 12 carros alegóricos em 2025

Além do contraste com os serviços públicos, outro ponto chama atenção no levantamento das licitações natalinas: o acervo que o Município já possuía antes das novas contratações.

No Estudo Técnico Preliminar do Pregão Eletrônico nº 70/2025, a própria administração registrou a existência de 96 árvores de Natal, 12 carros alegóricos, 157 estruturas metálicas e outros elementos decorativos nos dois barracões municipais.

O documento também menciona materiais de iluminação relacionados aos pregões 40 e 41/2025. São quantidades expressivas que tornam necessária uma explicação sobre quanto do material foi efetivamente adquirido, utilizado, preservado e destinado ao Natal de 2026.

O que consta no estudo oficial de 2025
Árvores de Natal96 unidades
Carros alegóricos12 unidades
Estruturas metálicas157 unidades
Esculturas e enfeites23 unidades
Bolas metálicas produzidas400 unidades
Pórticos produzidos8 unidades

Fonte: Estudo Técnico Preliminar do Pregão 70/2025, item 6.2. Trata-se de levantamento descritivo, não de inventário físico atualizado.

A existência desse acervo não comprova que as novas compras sejam desnecessárias. Decorações podem sofrer desgaste, passar por reformas ou ser ampliadas. Porém, os documentos levantam uma pergunta relevante: qual é o estoque disponível e como ele foi considerado no planejamento das novas aquisições?

O Portal Verdades também prepara a apuração individualizada das atas de registro de preços, dos fornecedores e das movimentações do patrimônio para verificar se as contratações foram acompanhadas por controle adequado das quantidades adquiridas.


Prioridades da administração

A discussão não é apenas quanto custa o Natal, mas como a Prefeitura estabelece suas prioridades

A programação natalina faz parte das atividades culturais de Pato Branco e pode contribuir para o comércio, o turismo e a movimentação econômica. A realização de eventos públicos, por si só, não representa irregularidade.

Também é necessário observar que as despesas da Prefeitura podem envolver diferentes dotações orçamentárias, fontes de financiamento e recursos legalmente vinculados. Portanto, não é possível concluir que os valores previstos para o Natal poderiam ser transferidos integralmente para saúde ou pavimentação.

Isso não elimina, porém, o debate sobre prioridades administrativas. Quando uma gestão organiza contratações de vários milhões de reais para uma programação festiva, é legítimo questionar a dimensão dos investimentos, a necessidade das aquisições e os resultados alcançados em outras áreas essenciais.

A administração precisa demonstrar não apenas que as licitações seguem os procedimentos legais, mas também que o planejamento considera o patrimônio existente, os custos efetivos e os benefícios esperados para a população.

As respostas que ainda precisam ser esclarecidas

Quanto será efetivamente gasto no Natal de 2026? Quais materiais do acervo anterior serão reaproveitados? Qual é o estoque disponível nos barracões? Quais contratos já foram executados e pagos? E como a Prefeitura concilia a programação cultural com as necessidades de manutenção e atendimento dos serviços públicos?

A reportagem não identificou, nos documentos analisados, um demonstrativo consolidado que responda a todos esses questionamentos. O Portal Verdades mantém espaço aberto para manifestação da Prefeitura de Pato Branco, apresentação de documentos e esclarecimentos sobre os custos e o planejamento do Natal de 2026.

O debate que fica não é se Pato Branco deve celebrar o Natal, mas se a cidade consegue planejar suas celebrações com transparência e, ao mesmo tempo, responder às demandas de quem precisa de atendimento médico, de ruas conservadas e de obras públicas funcionando.


Documentos e reportagens

Confira as fontes utilizadas

Pregão 36/2026 — Aquisição de materiais natalinos

Pregão 60/2026 — Decoração dos carros alegóricos

Pregão 61/2026 — Casa Temática

Estudo técnico de 2025 — Relação do acervo natalino

Reportagem — Situação da Avenida Frei Policarpo

Reportagem — Terminal Urbano e acordo com o TCE-PR