MP investiga gratificações de quase 100%, cargos comissionados e diárias na Câmara de Coronel Vivida

O Ministério Público do Paraná abriu um inquérito civil para apurar gratificações de até 95% pagas a servidores da Câmara Municipal de Coronel Vivida, além da manutenção de cargo jurídico comissionado em um Legislativo que já possui Procurador concursado. O procedimento mira portarias, vencimentos, funções gratificadas, cargos de confiança e despesas com diárias.

A apuração teve origem em denúncia anônima encaminhada ao GEPATRIA, grupo especializado do Ministério Público, e posteriormente remetida à Promotoria de Justiça de Coronel Vivida. Após as primeiras diligências, a Notícia de Fato foi convertida em Inquérito Civil, ampliando a investigação sobre os atos praticados no âmbito do Legislativo municipal.

Maior gratificação citada
95%
sobre o vencimento-base
Gratificações analisadas
4
servidores efetivos citados
Período financeiro
2025
janeiro a agosto
Despesa com diárias
R$ 19,2 mil
valor informado em planilhas

O QUE ESTÁ SENDO APURADO

MP questiona se funções usadas para justificar gratificações já fazem parte dos cargos

O ponto mais sensível da investigação está nas gratificações concedidas por portarias a servidores efetivos da Câmara. Segundo os documentos analisados, há casos de gratificação de 35%, 75% e 95% sobre o vencimento-base, sob a justificativa de exercício de funções específicas, dedicação exclusiva ou atribuições consideradas de maior responsabilidade.

A Promotoria, no entanto, pediu explicações sobre a natureza dessas funções. Em especial, o Ministério Público questionou se as atividades atribuídas a ocupantes do cargo de Técnico Administrativo, apresentadas como funções não inerentes ao cargo original, não estariam, na prática, dentro das atribuições administrativas já previstas para o próprio cargo.

Essa é a principal discussão jurídica do caso: a legislação local pode prever gratificação por função, mas o MP quer esclarecer se as funções gratificadas são efetivamente extraordinárias ou se houve apenas a criação de designações internas para justificar acréscimos expressivos de remuneração.

Ponto central da investigação

A Promotoria apura se as gratificações pagas pela Câmara de Coronel Vivida correspondem a funções realmente distintas e excepcionais ou se remuneram atividades que já poderiam estar abrangidas pelas atribuições normais dos cargos efetivos.

PORTARIAS E PERCENTUAIS

Gratificações chegaram a quase dobrar vencimentos de servidores

Entre os cargos citados nos documentos estão servidores efetivos e ocupantes de cargos comissionados. No caso das gratificações funcionais, aparecem quatro cargos com percentuais distintos: Contador, Técnico Administrativo, Procurador Legislativo e Técnica Administrativa.

Contador Portaria nº 01/2025. Gratificação de 35%.
Técnico Administrativo Portaria nº 02/2025. Gratificação de 95%.
Procurador Legislativo Portaria nº 03/2025. Gratificação de 75%.
Técnica Administrativa Portaria nº 04/2025. Gratificação de 95%.

Conforme os documentos financeiros juntados ao procedimento, as gratificações funcionais pagas aos quatro servidores efetivos somaram aproximadamente R$ 178,7 mil entre janeiro e agosto de 2025. O dado representa o total das gratificações no período analisado e não significa, por si só, conclusão de irregularidade.

Quando considerados os proventos totais dos servidores citados nas fichas financeiras analisadas — incluindo os cargos comissionados mencionados no procedimento — o montante aproximado chega a R$ 581,4 mil entre janeiro e agosto de 2025. Esse valor corresponde à soma bruta dos proventos identificados nos documentos e também não representa, isoladamente, dano ao erário ou ilegalidade comprovada.

RESPOSTA DA CÂMARA

Legislativo afirma que funções têm maior responsabilidade e complexidade

Em resposta ao Ministério Público, a Câmara Municipal de Coronel Vivida sustentou que as gratificações foram concedidas com base na legislação municipal e que os servidores exercem funções distintas das atribuições ordinárias dos cargos de origem.

No caso dos cargos de Técnico Administrativo, a Câmara afirmou que as funções de Diretor Administrativo e Diretora Geral da Câmara envolveriam maior complexidade, responsabilidade e coordenação interna, o que justificaria o pagamento de gratificação funcional.

A Promotoria, por sua vez, solicitou esclarecimentos complementares justamente para verificar se essas funções são efetivamente diferenciadas ou se se confundem com as atribuições já previstas para os cargos efetivos. O caso ainda está em fase de apuração.

CARGO JURÍDICO COMISSIONADO

MP também questiona manutenção de assessor jurídico mesmo com Procurador concursado

Outro ponto relevante do inquérito envolve o cargo de Assessor Jurídico da Presidência, nomeado por portaria em 2025, com remuneração indicada nos documentos de R$ 5.755,76.

O Ministério Público pediu que a Câmara justificasse a necessidade de manutenção do cargo comissionado, considerando que o Legislativo já possui Procurador Legislativo concursado. A Promotoria também solicitou informações sobre eventual vínculo de parentesco ou relacionamento que pudesse gerar conflito de interesse.

Nos documentos enviados ao MP, a Câmara afirmou que o ocupante do cargo apresentou declaração negando parentesco consanguíneo ou por afinidade até o terceiro grau com vereadores, servidores ou ocupantes de direção e assessoramento. O Legislativo também informou, conforme o ofício, que foi apresentada declaração negando relacionamento afetivo amoroso.

A própria Câmara, porém, informou ao Ministério Público que a extinção do cargo de Assessor Jurídico da Presidência chegou a ser objeto de estudo. Posteriormente, o Legislativo comunicou que tentou angariar apoio entre os vereadores para viabilizar a medida, mas que não houve consenso até aquele momento.

Cargo sob questionamento
Cargo Assessor Jurídico da Presidência
Portaria Portaria nº 07/2025
Remuneração indicada R$ 5.755,76
Ponto questionado Necessidade do cargo diante da existência de Procurador Legislativo concursado

OUTRAS NOMEAÇÕES

Denúncia também cita assessoria de comunicação e possível vínculo político-eleitoral

A denúncia que deu origem ao procedimento também menciona a nomeação para o cargo de Assessoria de Comunicação, por portaria de 2025, com remuneração indicada nos documentos de R$ 5.755,76.

Segundo a narrativa apresentada ao Ministério Público, a nomeação teria possível relação com atuação político-eleitoral anterior. Até o momento, porém, os documentos analisados não trazem conclusão definitiva sobre eventual irregularidade nesse ponto. A informação consta como elemento da denúncia e permanece sujeita à apuração da Promotoria.

DIÁRIAS E DESPESAS

Câmara apresentou planilhas e negou empenho único de R$ 19,2 mil

O procedimento também aborda despesas com diárias e viagens. Conforme os documentos encaminhados, as diárias pagas entre janeiro e abril de 2025 somaram R$ 19.200,00, distribuídas entre diferentes beneficiários.

A Câmara esclareceu ao Ministério Público que não houve um único empenho global nesse valor, mas despesas discriminadas em planilhas. Esse ponto aparece como elemento complementar da apuração, enquanto o eixo principal do inquérito permanece concentrado nas gratificações, cargos comissionados e justificativas funcionais apresentadas pelo Legislativo.

LINHA DO TEMPO

Da denúncia anônima à abertura do inquérito civil

09/06/2025 GEPATRIA analisa a denúncia anônima e declina atribuição para a Promotoria de Justiça de Coronel Vivida.
04/09/2025 Promotoria determina diligências e requisita documentos à Câmara Municipal.
17/09/2025 Câmara responde ao MP e encaminha portarias, leis, fichas financeiras e demonstrativos.
07/02/2026 Notícia de Fato é convertida em Inquérito Civil.
10/02/2026 MP pede explicações sobre gratificações próximas de 100% e sobre o cargo jurídico comissionado.
26/02/2026 Câmara afirma que as funções são distintas e informa que a extinção do cargo jurídico estava em estudo.
28/04/2026 Câmara informa que tentou viabilizar apoio para extinção do cargo, mas que não houve consenso entre os vereadores.

APURAÇÃO EM ANDAMENTO

Caso ainda não tem conclusão definitiva

Até o momento, o procedimento analisado indica a existência de investigação em andamento, requisição de documentos e questionamentos formais do Ministério Público. Não há, nos documentos analisados, decisão definitiva reconhecendo ilegalidade, improbidade administrativa ou dano ao erário.

A apuração deverá esclarecer se as gratificações pagas pela Câmara de Coronel Vivida possuem amparo jurídico e justificativa funcional concreta, ou se houve distorção no uso de portarias para ampliar remunerações de forma incompatível com os princípios da administração pública.

Também caberá ao Ministério Público avaliar se a manutenção de cargo jurídico comissionado, paralelamente à existência de Procurador Legislativo concursado, atende ao interesse público ou configura estrutura desnecessária dentro do Legislativo municipal.

Até eventual decisão definitiva, os servidores e agentes públicos citados no procedimento devem ser considerados presumidamente inocentes, com direito à ampla defesa e ao contraditório. A investigação segue sob responsabilidade do Ministério Público do Paraná.

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