A privatização da Celepar ganhou um novo e revelador capítulo. Um documento confidencial elaborado pelo Bradesco BBI para apresentação a potenciais investidores da Faria Lima contradiz frontalmente o discurso adotado pelo governo de Ratinho Junior para justificar a venda da estatal. Enquanto publicamente o Estado fala em risco de obsolescência tecnológica, o banco apresentou a empresa ao mercado como uma "joia" do setor govtech — lucrativa, estratégica e com forte potencial de crescimento. A revelação foi feita pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo.
O material integra o chamado Projeto NEX, nome oficial dado à operação de privatização da companhia de tecnologia do Estado. No documento, a Celepar é descrita com atributos que dificilmente combinam com a narrativa de crise: "fortes vantagens competitivas", "crescimento robusto" e potencial para se tornar a "primeira big tech do Paraná".
Para o povo, obsolescência. Para o mercado, big tech
A contradição no centro do debate é direta: o governo do Paraná tem defendido publicamente que a Celepar enfrenta riscos de ficar tecnologicamente ultrapassada e que a entrada da iniciativa privada seria necessária para modernizá-la. Ao mesmo tempo, o Bradesco BBI — banco contratado para conduzir a operação — apresentou aos investidores uma empresa com lucratividade superior à de concorrentes privados do mesmo segmento.
Para a oposição na Assembleia Legislativa do Paraná, a divulgação do conteúdo do Projeto NEX expõe uma narrativa construída para viabilizar politicamente uma privatização que, pelos números, não teria justificativa econômica clara. O líder da oposição, Arilson Chiorato, e a líder da bancada do PT, Ana Júlia Ribeiro, têm questionado reiteradamente a falta de transparência no processo e os riscos ligados à transferência de dados públicos estratégicos para controle privado.
Dados de milhões de paranaenses no centro do debate
A Celepar é responsável por sistemas considerados essenciais para a administração pública estadual. Sob seu controle estão informações de milhões de paranaenses nas áreas de saúde, educação, segurança pública, arrecadação tributária e cadastro de servidores estaduais — um conjunto de dados que parlamentares contrários à venda classificam como estratégico e sensível demais para ser repassado à iniciativa privada.
Além da questão dos dados, a oposição também apontou outras irregularidades no processo: condução sigilosa de etapas da privatização, renovação antecipada de contratos bilionários antes do leilão ser concluído e o risco de perda da soberania digital do Estado.
STF já suspendeu o leilão uma vez
O debate chegou ao Supremo Tribunal Federal. Em decisão anterior, o ministro Flávio Dino suspendeu o leilão da Celepar ao apontar a necessidade de garantias mais rígidas para a proteção de dados e para a preservação do controle estatal sobre sistemas considerados estratégicos. O processo segue em aberto.
A divulgação do Projeto NEX amplia o alcance da discussão ao colocar em evidência a diferença entre o que é dito à população paranaense e o que foi apresentado, em caráter confidencial, aos investidores do mercado financeiro.
Por Gustavo - Portal Verdades / Fonte: Gazeta do Paraná / O Globo (Lauro Jardim)
