Documento confidencial do Bradesco BBI vende Celepar como “mina de ouro” para investidores enquanto governo fala em obsolescência

A privatização da Celepar ganhou um novo e revelador capítulo. Um documento confidencial elaborado pelo Bradesco BBI para apresentação a potenciais investidores da Faria Lima contradiz frontalmente o discurso adotado pelo governo de Ratinho Junior para justificar a venda da estatal. Enquanto publicamente o Estado fala em risco de obsolescência tecnológica, o banco apresentou a empresa ao mercado como uma "joia" do setor govtech — lucrativa, estratégica e com forte potencial de crescimento. A revelação foi feita pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo.

O material integra o chamado Projeto NEX, nome oficial dado à operação de privatização da companhia de tecnologia do Estado. No documento, a Celepar é descrita com atributos que dificilmente combinam com a narrativa de crise: "fortes vantagens competitivas", "crescimento robusto" e potencial para se tornar a "primeira big tech do Paraná".

Números do Projeto NEX — O que o Bradesco BBI mostrou aos investidores
Receita líquida (2025)
R$ 556,9 mi
Balanço oficial da Celepar
Lucro líquido (2025)
R$ 210,7 mi
Resultado recorde da estatal
Margem Ebitda (2024)
30,6%
Considerada elevada no setor
Margem líquida (2024)
26,8%
Superior a empresas comparáveis

O discurso duplo

Para o povo, obsolescência. Para o mercado, big tech

A contradição no centro do debate é direta: o governo do Paraná tem defendido publicamente que a Celepar enfrenta riscos de ficar tecnologicamente ultrapassada e que a entrada da iniciativa privada seria necessária para modernizá-la. Ao mesmo tempo, o Bradesco BBI — banco contratado para conduzir a operação — apresentou aos investidores uma empresa com lucratividade superior à de concorrentes privados do mesmo segmento.

Para a oposição na Assembleia Legislativa do Paraná, a divulgação do conteúdo do Projeto NEX expõe uma narrativa construída para viabilizar politicamente uma privatização que, pelos números, não teria justificativa econômica clara. O líder da oposição, Arilson Chiorato, e a líder da bancada do PT, Ana Júlia Ribeiro, têm questionado reiteradamente a falta de transparência no processo e os riscos ligados à transferência de dados públicos estratégicos para controle privado.


O que está em jogo

Dados de milhões de paranaenses no centro do debate

A Celepar é responsável por sistemas considerados essenciais para a administração pública estadual. Sob seu controle estão informações de milhões de paranaenses nas áreas de saúde, educação, segurança pública, arrecadação tributária e cadastro de servidores estaduais — um conjunto de dados que parlamentares contrários à venda classificam como estratégico e sensível demais para ser repassado à iniciativa privada.

Além da questão dos dados, a oposição também apontou outras irregularidades no processo: condução sigilosa de etapas da privatização, renovação antecipada de contratos bilionários antes do leilão ser concluído e o risco de perda da soberania digital do Estado.


Poder Judiciário

STF já suspendeu o leilão uma vez

O debate chegou ao Supremo Tribunal Federal. Em decisão anterior, o ministro Flávio Dino suspendeu o leilão da Celepar ao apontar a necessidade de garantias mais rígidas para a proteção de dados e para a preservação do controle estatal sobre sistemas considerados estratégicos. O processo segue em aberto.

A divulgação do Projeto NEX amplia o alcance da discussão ao colocar em evidência a diferença entre o que é dito à população paranaense e o que foi apresentado, em caráter confidencial, aos investidores do mercado financeiro.

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