Após reeleição de Lula, Bolsa fecha pior semana desde 2020 e empresas perdem quase R$ 1 trilhão em valor de mercado

O mercado financeiro brasileiro encerrou a primeira semana após a reeleição de Lula com perdas históricas. O Ibovespa recuou 18,12%, segundo a Reuters, enquanto um levantamento da Folha aponta redução de R$ 996,5 bilhões no valor de mercado das empresas. O dólar disparou mais de 9%, e as incertezas fiscais pressionaram os juros e os investimentos.

Fachada histórica da Bolsa de Valores de São Paulo, com três arcos e inscrições Bovespa, fotografia de arquivo de 2017
Fachada histórica da Bolsa de Valores de São Paulo, em fotografia de 2017. Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0. Imagem ilustrativa de arquivo, não registra os pregões de outubro de 2026.

A primeira semana do mercado financeiro após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva terminou com uma das maiores turbulências econômicas dos últimos anos. O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira, acumulou queda de 18,12% entre segunda-feira (26) e sexta-feira (30), registrando seu pior desempenho semanal desde março de 2020, quando o início da pandemia de Covid-19 abalou os mercados mundiais. Segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, as empresas listadas na Bolsa perderam aproximadamente R$ 996,5 bilhões em valor de mercado durante a semana.

O dólar também disparou, acumulando valorização superior a 9% diante do real, o maior avanço semanal desde a crise financeira internacional de 2008. A sequência de perdas ocorreu em meio à reversão de expectativas construídas antes do segundo turno presidencial, às dúvidas sobre a política fiscal do próximo mandato e a um cenário internacional de maior cautela. Embora a eleição tenha sido um dos principais fatores apontados por analistas, não é possível atribuir toda a desvalorização exclusivamente ao resultado das urnas.

Ibovespa na semana
−18,12%
Pior semana desde março de 2020
Valor de mercado perdido
R$ 996,5 bi
Estimativa da Folha
Dólar na semana
+9%
Maior alta desde 2008
Fechamento histórico

Bolsa acumula cinco quedas seguidas e encerra semana aos 167 mil pontos

Na sexta-feira (30), o Ibovespa recuou mais 0,75%, encerrando aos 167.921,80 pontos. Foi o quinto pregão consecutivo de queda. Segundo a Reuters, a perda semanal de 18,12% foi a maior desde a semana encerrada em 20 de março de 2020, quando o indicador havia caído 18,88%.

A Folha de S.Paulo apresentou retração semanal de aproximadamente 17,5% em seu levantamento. Os percentuais publicados pelos veículos diferem, mas ambos apontam a mesma conclusão: foi a pior semana da Bolsa brasileira desde o início da pandemia.

A turbulência começou na segunda-feira (26), primeiro pregão após a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro. Naquele dia, o índice despencou 13,88% e a B3 acionou o chamado circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando a queda atinge determinados limites.

A suspensão durou 30 minutos. O procedimento, confirmado oficialmente pela B3, busca conter movimentos desordenados e permitir que os investidores reavaliem suas operações.

No fechamento de outubro, a Bolsa acumulou perda mensal de 9,88%, segundo a Reuters, a maior queda para um mês desde junho de 2022.

Quase R$ 1 trilhão

O que significa a perda de R$ 996,5 bilhões das empresas?

Um dos números de maior impacto foi apresentado pela Folha de S.Paulo: aproximadamente R$ 996,5 bilhões em redução do valor de mercado das empresas negociadas na Bolsa durante a semana posterior à eleição presidencial.

Esse valor representa a diferença na avaliação das companhias a partir das cotações de suas ações. Quando os preços caem, o valor de mercado calculado dessas empresas também diminui.

O que o número realmente representa

A perda de quase R$ 1 trilhão não significa que essa quantia tenha sido retirada de contas bancárias, transferida para o exterior ou efetivamente perdida por todos os investidores. É uma redução de valor patrimonial estimado pelas cotações das ações. Ganhos e perdas realizados dependem das operações efetuadas por cada investidor.

Existe, porém, um movimento concreto de retirada de recursos estrangeiros. Dados da B3 citados pela Reuters apontam saída líquida de aproximadamente R$ 7,6 bilhões de investidores internacionais do mercado secundário de ações nos três primeiros pregões da semana. Apesar disso, os saldos de participação estrangeira ainda eram positivos no acumulado de outubro e do ano, conforme os dados disponíveis no momento da reportagem.

Reação ao resultado eleitoral

Investidores haviam apostado em mudança de governo

A Reuters ouviu analistas que relacionaram parte importante da desvalorização à revisão das expectativas formadas antes do segundo turno. Durante outubro, o mercado acionário havia registrado forte valorização em meio à perspectiva, considerada por determinados investidores, de uma possível vitória de Flávio Bolsonaro e de mudanças na orientação econômica do governo federal.

Com a reeleição de Lula, posições financeiras construídas sobre essa hipótese passaram por ajustes. Gestores venderam ações, revisaram projeções para juros e câmbio e buscaram proteção contra novos movimentos de volatilidade.

Nicolas Gass, sócio e chefe de alocação da GT Capital, afirmou à Reuters que parte do mercado havia apostado numa troca de governo e numa mudança fiscal. Segundo sua avaliação, o resultado eleitoral provocou uma reversão rápida dessas expectativas.

Além da eleição, investidores acompanharam a indefinição sobre a futura equipe econômica e aguardam sinalizações do governo sobre a condução das contas públicas, o controle das despesas e as medidas fiscais para o próximo mandato.

Dólar e juros

Dólar tem maior disparada semanal desde 2008 e juros futuros sobem

O dólar comercial encerrou a sexta-feira cotado próximo de R$ 5,44. A Reuters e a Agência Brasil registraram valorização semanal superior a 9%, percentual que representa a maior alta desde outubro de 2008, período da crise financeira internacional.

Os percentuais exatos variaram entre levantamentos: a Agência Brasil apontou alta semanal de 9,15%, enquanto a Folha informou 9,18%. As diferenças de apuração não modificam a dimensão histórica do movimento.

Os juros futuros também registraram forte elevação. Segundo a Folha, a taxa do contrato de DI com vencimento em janeiro de 2031 passou de 12,64% para aproximadamente 15,3% durante a semana.

A alta reflete a revisão das expectativas dos agentes financeiros sobre inflação, risco fiscal e trajetória dos juros. Ela não significa que a taxa básica Selic tenha sido elevada automaticamente pelo Banco Central.

Impactos na economia

A turbulência pode chegar ao crédito, aos preços e aos investimentos?

Embora os movimentos tenham ocorrido inicialmente no mercado financeiro, a manutenção de um dólar mais elevado pode encarecer produtos importados, componentes industriais, combustíveis e insumos cotados internacionalmente. O repasse aos preços, entretanto, depende da duração da alta cambial, da concorrência e das decisões comerciais de cada setor.

Da mesma forma, juros futuros mais altos podem elevar o custo de financiamento das empresas e influenciar empréstimos, investimentos e projetos de longo prazo. Esses efeitos não são automáticos e dependem de como as condições econômicas evoluírem nos próximos meses.

No Paraná, onde agronegócio, indústria e comércio exterior têm presença importante, o câmbio pode produzir efeitos diferentes: exportadores que recebem em dólar podem obter maior receita em reais, enquanto empresas dependentes de importações podem enfrentar aumento de custos.

A turbulência financeira também não resume o desempenho da economia real. Dados divulgados na sexta-feira pelo IBGE apontaram taxa de desemprego de 5,2% no terceiro trimestre, a menor para esse período desde o início da série comparável em 2012.

Cenário internacional

Queda não pode ser atribuída somente à eleição brasileira

Além das incertezas internas, o mercado internacional também enfrentou pressão na sexta-feira, especialmente entre empresas de tecnologia e inteligência artificial dos Estados Unidos.

Segundo a Reuters, o índice americano S&P 500 caiu 1,82% naquele pregão. A cautela global, as expectativas sobre juros internacionais e a busca por proteção cambial contribuíram para um ambiente menos favorável aos ativos brasileiros.

A dimensão da queda no Brasil, no entanto, foi particularmente expressiva, com forte concentração de perdas no primeiro pregão após o segundo turno. A combinação entre revisão das apostas eleitorais, dúvidas fiscais e fatores externos ajuda a explicar a intensidade dos movimentos.

Os próximos indicadores dependerão, entre outros fatores, das sinalizações sobre a equipe econômica, da apresentação de propostas para as contas públicas, das decisões do Banco Central e das condições internacionais.

O balanço fechado em 30 de outubro confirma uma semana histórica para os mercados: cinco pregões consecutivos de queda, desvalorização acionária próxima de R$ 1 trilhão em valor estimado e uma das maiores altas semanais do dólar em quase duas décadas. Os números são expressivos, mas ainda não permitem determinar quanto da turbulência será temporário ou quais efeitos permanecerão sobre a economia brasileira.

Imagem destacada de arquivo (2017): fachada histórica da Bolsa de Valores de São Paulo. Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons. Licença CC BY-SA 4.0. Fonte original da imagem. Fotografia não registra os pregões de 2026.