Após perder para Lula, Flávio Bolsonaro se declara presidente eleito em carta, altera documento e agradece a Trump e Milei

Depois de chegar aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro divulgou uma carta na qual inicialmente se apresentava como o verdadeiro presidente eleito do Brasil, apesar da derrota para Lula por mais de 4,4 milhões de votos. O texto foi alterado para “líder do Brasil”, manteve acusações de fraude sem provas e agradeceu aos presidentes Donald Trump e Javier Milei pelo apoio recebido.

Senador Flávio Bolsonaro, de terno azul, discursando na tribuna do Senado Federal, com os braços abertos
Flávio Bolsonaro em setembro de 2026. Foto: Carlos Moura/Agência Senado, via Wikimedia Commons. Licença CC BY-SA 4.0. Fotografia de arquivo; recorte preexistente no Wikimedia Commons.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais, divulgou nesta quarta-feira (28) uma carta em que se apresentava como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. O documento, publicado após sua chegada aos Estados Unidos, foi alterado minutos depois, substituindo a autodeclaração por “líder do Brasil”. Na mensagem, Flávio também questionou a legitimidade da votação, sem apresentar provas de fraude, e agradeceu aos presidentes Donald Trump e Javier Milei.

A carta foi divulgada inicialmente por aliados do senador, entre eles o influenciador Paulo Figueiredo. Segundo levantamento da Folha de S.Paulo, pelo menos quatro versões circularam ao longo da tarde, com mudanças no brasão utilizado e na forma como Flávio se apresentava. O episódio provocou reações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de integrantes do próprio PL e do presidente americano.

Primeira versão

Mesmo derrotado, Flávio afirmou ser o verdadeiro presidente eleito

A versão inicial da carta começava com uma declaração dirigida ao povo brasileiro e à comunidade internacional, na qual Flávio se apresentava como o verdadeiro presidente eleito do país.

A afirmação contraria o resultado oficial do segundo turno, realizado no domingo (25), quando Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%. A diferença foi de 4.430.191 votos.

Lula — votos válidos
51,79%
64.256.232 votos
Flávio — votos válidos
48,21%
59.826.041 votos

O resultado foi reconhecido pela Justiça Eleitoral e pelo próprio PL, partido de Flávio. Não existe decisão judicial que tenha anulado a votação ou reconhecido a vitória do senador.

Alterações

Carta teve quatro versões e chegou a usar brasão antigo do Brasil

A primeira versão distribuída por aliados trazia um brasão com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, denominação histórica do país, anterior à atual República Federativa do Brasil.

Após a divulgação, um segundo arquivo foi encaminhado com o brasão atualizado, mas mantendo a afirmação de que Flávio seria o presidente eleito.

Posteriormente, o próprio senador publicou uma versão na rede social X. Cerca de 22 minutos depois, editou a postagem e substituiu as referências a “presidente eleito” por “líder do Brasil”.

A alteração ocorreu depois de o documento circular amplamente entre jornalistas, políticos e usuários das redes sociais. A mensagem final preservou as críticas ao processo eleitoral e o anúncio de que Flávio pretende continuar sua atuação política a partir dos Estados Unidos.

Acusações eleitorais

Senador voltou a alegar fraude sem apresentar provas

Na carta, Flávio questionou a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou a prorrogação do funcionamento das seções eleitorais durante o segundo turno.

O senador sustentou que a medida teria prejudicado a legitimidade da eleição. A alegação, porém, não foi acompanhada de elementos que comprovassem fraude ou alteração indevida do resultado.

A prorrogação foi autorizada após solicitações das campanhas do PL e do PT, diante de dificuldades provocadas por chuvas e problemas de deslocamento de eleitores.

Segundo levantamento oficial do TSE, 34.393 votos foram registrados depois das 17h em todo o país. O número é muito inferior à diferença de mais de 4,4 milhões de votos entre os candidatos. Além disso, o levantamento não permite afirmar que todos esses votos decorreram exclusivamente da prorrogação.

Agradecimentos

Flávio agradece a Trump e Milei após deixar o Brasil

O senador dedicou parte da mensagem a agradecer aos presidentes da Argentina, Javier Milei, e dos Estados Unidos, Donald Trump.

Flávio elogiou Milei pela postura adotada durante sua passagem pela Argentina e agradeceu a Trump e à população americana pela acolhida nos Estados Unidos.

A manifestação ocorreu depois de o senador atravessar a fronteira de Foz do Iguaçu, no Paraná, em direção a Puerto Iguazú, na noite de terça-feira (27). A partir da Argentina, ele seguiu em aeronave particular, com escala no Equador, até Miami.

A saída aconteceu apesar de uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que havia determinado a entrega dos passaportes de Flávio e proibido sua saída do território nacional no âmbito de investigações em andamento.

O senador nega irregularidades e afirma que decidiu deixar o Brasil por considerar que estaria sofrendo perseguição política. A existência das investigações e das medidas cautelares não constitui condenação.

Reação americana

Trump diz que não pretende se envolver

Questionado por jornalistas sobre a declaração de Flávio, Donald Trump evitou reconhecer a alegação de que o senador seria o verdadeiro vencedor da eleição.

O presidente americano confirmou que seu governo autorizou a entrada de Flávio e de seus familiares nos Estados Unidos, mas afirmou que não pretende se envolver na controvérsia política brasileira.

Trump voltou a levantar dúvidas sobre a eleição, sem apresentar provas de irregularidades. Sua manifestação não representa reconhecimento de Flávio como presidente eleito do Brasil.

Reação institucional

Presidente do TSE reafirma legitimidade das eleições

Na noite desta quarta-feira (28), o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, divulgou uma nota pública reafirmando a regularidade do processo eleitoral.

Sem citar Flávio nominalmente, Nunes Marques destacou o trabalho dos servidores, mesários e profissionais envolvidos na votação e afirmou que as eleições transcorreram dentro da normalidade, com respeito à legislação e à Constituição.

O ministro também reiterou o compromisso da Justiça Eleitoral com a vontade expressa pelos eleitores e declarou que eventuais questionamentos apresentados pelos meios legais serão examinados.

Reação do PL

Coordenador da campanha diz que não há provas de fraude

A carta também provocou uma reação do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.

Questionado sobre a mudança no texto, Marinho afirmou que poderia ter ocorrido um problema na elaboração do documento e considerou oficial a versão publicada pelo senador em suas redes sociais.

Sobre as acusações de fraude, o aliado reconheceu que não existem provas que permitam ao partido sustentar essa afirmação.

Outras lideranças que apoiaram Flávio, incluindo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também defenderam o respeito ao resultado eleitoral.

Oposição do exterior

Flávio anuncia que pretende liderar oposição a partir dos EUA

Apesar de alterar a forma como se apresenta na carta, Flávio manteve a intenção de atuar politicamente a partir dos Estados Unidos.

No documento, afirmou que pretende se manifestar regularmente, mobilizar apoiadores e participar da articulação política da oposição brasileira. Também declarou apoio a Rogério Marinho para a presidência do Senado.

O senador não informou uma data para retornar ao Brasil nem detalhou eventual pedido de asilo político.

A divulgação e as alterações da carta, as acusações sem provas e as respostas do TSE e de aliados acrescentam um novo capítulo à crise política iniciada após o segundo turno. O resultado oficial, entretanto, permanece inalterado: Lula venceu a eleição presidencial de 2026 e foi reconhecido pela Justiça Eleitoral como presidente reeleito.

Foto destacada de arquivo: Carlos Moura/Agência Senado. Licença CC BY-SA 4.0. Fonte da fotografia; recorte preexistente.