Deltan diz que saída de Flávio para os EUA tirou de Moraes sua “maior arma” para evitar impeachment

Senador eleito pelo Paraná, Deltan Dallagnol afirma que Alexandre de Moraes poderia utilizar o inquérito contra Flávio Bolsonaro como instrumento de pressão sobre a direita no Senado. A declaração ocorre após a derrota de Flávio para Lula, a ordem de entrega dos passaportes e a confirmação jornalística de sua saída para os Estados Unidos.

Montagem com retratos de Deltan Dallagnol, Alexandre de Moraes e Flávio Bolsonaro

O senador eleito pelo Paraná Deltan Dallagnol (Novo) afirmou nesta terça-feira (27) que a saída de Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil pode representar um revés político para o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo Deltan, o magistrado poderia utilizar a investigação contra Flávio como instrumento de pressão sobre parlamentares de direita para evitar a abertura de um processo de impeachment no Senado.

A declaração foi feita em vídeo divulgado nas redes sociais, em meio às notícias sobre o paradeiro do candidato derrotado à Presidência da República. Horas depois das primeiras especulações, a agência Reuters informou, com base em um aliado próximo de Flávio e uma fonte do governo norte-americano, que o senador havia deixado o Brasil rumo aos Estados Unidos, apesar da ordem judicial que o proibia de sair do país.

“Moraes teria uma arma para impedir o seu próprio impeachment e, com a saída de Flávio, Moraes perdeu essa arma.”

Deltan Dallagnol, senador eleito pelo Paraná

Deltan, que recebeu mais de 2,9 milhões de votos nas eleições de outubro e tem mandato previsto para começar em fevereiro de 2027, sustenta que a permanência de Flávio no Brasil poderia ser utilizada como fator de pressão nas negociações políticas envolvendo o futuro de Moraes no Supremo.

BASTIDORES DO PODER

A suposta estratégia de blindagem contra o impeachment

Para fundamentar sua avaliação, Deltan citou uma reportagem publicada pelo jornalista Igor Gadelha, do Metrópoles, segundo a qual aliados de Flávio Bolsonaro e integrantes do governo Lula consideram a possibilidade de Moraes utilizar o andamento do inquérito para diminuir a pressão pelo seu impeachment.

Na interpretação do senador eleito, uma eventual ameaça de medidas judiciais mais graves contra Flávio poderia levar parlamentares da oposição a recuar de iniciativas contra o ministro.

Deltan classificou essa possibilidade como uma tentativa de transformar Flávio em uma espécie de refém político. Para ele, uma eventual permanência do parlamentar nos Estados Unidos dificultaria o emprego de medidas coercitivas e reduziria o suposto poder de pressão de Moraes.

A reportagem do Metrópoles também relaciona a hipótese de blindagem à disputa pela presidência do Senado em 2027, citando a eventual permanência de Davi Alcolumbre (União-AP) no comando da Casa. A análise considera o papel do presidente do Senado no encaminhamento de pedidos de impeachment contra ministros do STF.

Entretanto, não há comprovação pública de que Moraes tenha instaurado ou conduzido a investigação com a finalidade de impedir seu impeachment. A acusação apresentada por Deltan corresponde a uma interpretação política sobre as possíveis consequências do inquérito.

CRONOLOGIA

Pedido da Polícia Federal foi assinado sete minutos após resultado eleitoral

Outro ponto destacado por Deltan foi a rapidez da representação da Polícia Federal que solicitou a apreensão dos passaportes de Flávio Bolsonaro após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, realizado domingo (25).

Resultado matemático do TSE
21h09
Domingo, 25 de outubro
Assinatura do pedido da PF
21h16
Representação de 16 páginas

Os horários foram divulgados pela coluna de Malu Gaspar, do jornal O Globo, que teve acesso à representação policial. Moraes acolheu o pedido ainda na noite de domingo, sem manifestação prévia da Procuradoria-Geral da República, conforme a apuração jornalística.

Deltan questionou como um documento de 16 páginas poderia ter sido elaborado em apenas sete minutos, sugerindo que a representação já estava preparada antes da confirmação oficial do resultado.

A proximidade entre os horários, contudo, não comprova por si só irregularidade ou perseguição. O documento policial estava relacionado a uma investigação já existente, que envolve suspeitas de lavagem de dinheiro e possíveis operações financeiras ligadas ao advogado Willer Tomaz. Flávio e Willer negam irregularidades.

SAÍDA DO BRASIL

Flávio descumpre prazo e tem passaportes cancelados

Flávio Bolsonaro deveria entregar seus passaportes à Polícia Federal até a manhã desta terça-feira (27), por determinação de Alexandre de Moraes. O prazo terminou sem a apresentação dos documentos, que acabaram cancelados pela PF.

Na segunda-feira (26), Flávio havia divulgado um vídeo afirmando que não pretendia deixar o Brasil e que permaneceria no país para organizar a oposição ao governo Lula.

A situação mudou com as notícias sobre sua saída. A Reuters confirmou o deslocamento aos Estados Unidos com fontes próximas ao parlamentar e do governo norte-americano. A rota utilizada, entretanto, ainda não estava esclarecida.

Na Argentina, o jornal La Nación noticiou a presença de um jato Gulfstream G400 no aeroporto de Puerto Iguazú, com previsão de transporte de quatro passageiros para Miami. O voo foi cancelado, mas não houve confirmação de que Flávio estivesse na lista de passageiros. Autoridades argentinas também informaram não possuir registro oficial de sua entrada no país.

Embora tenha descumprido a proibição de deixar o território nacional, Flávio não tinha, até as informações disponíveis nesta terça-feira, mandado de prisão expedido contra ele. A situação jurídica da saída e eventuais novas medidas dependem de decisões das autoridades competentes.

DISPUTA INSTITUCIONAL

Investigação continua e impeachment depende do Senado

A saída de Flávio para o exterior não encerra o inquérito em andamento no STF. Também não significa, automaticamente, que um eventual processo de impeachment contra Alexandre de Moraes terá maiores chances de avançar.

Pela Constituição Federal, compete ao Senado processar e julgar ministros do Supremo por crimes de responsabilidade. A abertura e a tramitação de um procedimento dessa natureza dependem das regras institucionais e das decisões do Legislativo.

No encerramento do vídeo, Deltan pediu orações pela família de Flávio Bolsonaro e afirmou que pretende utilizar seu futuro mandato para combater o que considera abusos de poder.

O episódio amplia a tensão política após a reeleição de Lula e coloca novamente no centro do debate os limites da atuação judicial, o direito de defesa dos investigados e o papel do Senado na fiscalização dos integrantes do Supremo Tribunal Federal.