Um vídeo gravado por Géri Dutra em 2024, antes do período eleitoral, voltou a circular nas redes sociais após um cidadão publicar uma gravação tentando tirar a responsabilidade do atual prefeito pela situação do Terminal Urbano. A discussão reacendeu porque, durante a campanha, Géri usou o terminal como uma das principais cobranças políticas e chegou a apresentar a colocação da estrutura em funcionamento como uma ação prioritária de governo.
O problema é que documentos oficiais mostram que, antes mesmo da campanha, já existiam entraves técnicos, administrativos e operacionais registrados por órgãos públicos, incluindo apontamentos do Corpo de Bombeiros, resposta da própria Prefeitura à Câmara Municipal e parecer do Ministério Público de Contas do Paraná. Ou seja, a promessa de colocar o terminal em funcionamento não dependia apenas de vontade política: havia uma série de obstáculos técnicos já conhecidos.
A responsabilidade pela origem dos problemas da obra pode até ser debatida, mas a responsabilidade pelo discurso adotado na campanha é direta. Se os entraves já estavam documentados, a população tinha o direito de saber que o terminal não poderia simplesmente ser aberto de imediato sem resolver questões de segurança, mobilidade, entorno e operação.
Terminal foi planejado na gestão Augustinho Zucchi e iniciado em 2020
O Terminal Urbano de Pato Branco foi planejado ainda na gestão do então prefeito Augustinho Zucchi e teve a obra iniciada em abril de 2020. A proposta era criar uma estrutura central para melhorar a integração do transporte coletivo, oferecer mais conforto aos usuários e atender a demanda diária do sistema, estimada à época em cerca de dez mil passageiros.
Em 2022 a obra passou a enfrentar paralisações e questionamentos técnicos, especialmente em relação ao entorno, à mobilidade urbana e à segurança operacional. Foi nesse período que surgiram documentos oficiais apontando entraves que, anos depois, continuariam impedindo a entrada em funcionamento do terminal.
Por isso, a discussão atual não envolve apenas quem iniciou ou executou a obra, mas também como o tema foi tratado politicamente depois que os problemas técnicos já estavam registrados em documentos públicos.
Géri cobrou a entrega do terminal antes da campanha
No vídeo de 2024, Géri Dutra afirma que quem circulava pelo entorno da Prefeitura já havia se perguntado por que o Terminal Urbano, apesar de praticamente finalizado, ainda não tinha sido inaugurado e liberado para uso da população.
Ele também relembrou que a obra começou em abril de 2020, ainda na gestão de Augusto Zucchi, com a proposta de atender cerca de dez mil usuários do transporte coletivo e acomodar a demanda futura.
O ponto central da controvérsia é que, quando essa cobrança foi feita no debate político, os obstáculos técnicos do terminal já estavam documentados oficialmente.
Documento alertava para impacto significativo na segurança
Em janeiro de 2023, o Corpo de Bombeiros encaminhou ofício ao Município tratando da segurança do Terminal Urbano. O documento registra que o Projeto Técnico de Prevenção a Incêndio e a Desastre havia sido aprovado, mas faz uma ressalva decisiva: o problema não estava apenas no prédio, e sim no entorno da obra.
O ofício afirma que o estreitamento viário na região da construção traria “significativo impacto na segurança da área do entorno”. Na sequência, detalha que a Rua Pedro Ramires de Mello passaria a ter largura de 2,62 metros, com uma única faixa, além de desnível lateral semelhante a um degrau.
Para o Corpo de Bombeiros, essa configuração restringiria o tráfego de veículos leves e inviabilizaria o trânsito de veículos pesados, incluindo viaturas de combate a incêndio e salvamento veicular.
Comparação mostra diferença entre a via prevista e a largura técnica
A gravidade do alerta fica mais clara quando se compara a largura prevista para a Rua Pedro Ramires de Mello com a referência técnica utilizada para acesso operacional de viaturas.
O documento também chama atenção para outro ponto sensível: em caso de emergência, não apenas caminhões de combate a incêndio poderiam ter dificuldade de acesso. As ambulâncias também poderiam ser prejudicadas, já que não haveria espaço suficiente para que outros veículos cedessem passagem de forma adequada.
Bombeiros citaram risco a edificações próximas
O ofício não faz uma análise genérica. Ele menciona edificações do entorno que poderiam ter a segurança comprometida em caso de emergência, justamente pela dificuldade de acesso das viaturas em uma eventual ocorrência.
Entre os locais citados estão o Tabelionato 2º Ofício, Condomínio Ouro Negro, Óticas Vieri, Lojas Globo, Residencial Ágape II, Salão Transform e Ótica Multilens. O documento registra que, em caso de incêndio, também seria necessário considerar o risco de propagação para outras edificações.
Resposta oficial à Câmara confirmou que havia entraves
Em fevereiro de 2023, a Prefeitura respondeu a questionamentos da Câmara Municipal sobre o Terminal Urbano. Na manifestação, o Executivo informou que não havia promovido alterações no objeto da licitação, mas confirmou a suspensão da obra do entorno até a realização de estudo técnico sobre o sistema de transporte coletivo urbano.
A resposta também registra que a suspensão teve como fundamento os apontamentos do Corpo de Bombeiros.
Outro trecho relevante informa que o custo das obras do entorno poderia ser reduzido caso o estudo técnico apontasse a necessidade de alocar o Terminal Urbano em outro local. Ou seja, a própria administração reconhecia oficialmente que a operação da estrutura ainda dependia de avaliação técnica.
Projeto de mini terminais foi substituído por terminal único
A resposta enviada à Câmara também resgata o estudo técnico da empresa Logitrans, elaborado em 2015, que apontava como solução um modelo com terminais descentralizados e de menor porte.
Segundo a própria Prefeitura, esse estudo foi alterado com base no Memorando nº 012/2019, do então secretário municipal de Planejamento Urbano, indicando a construção de um único terminal. O documento registra que, para essa definição, não foi realizado estudo técnico de embasamento.
Parecer apontou irregularidades técnicas e ausência de estudos preliminares
Em setembro de 2024, o Ministério Público de Contas do Paraná analisou a representação envolvendo o Terminal Urbano. Logo na ementa do parecer, o órgão registra que o funcionamento estava paralisado em razão de irregularidades técnicas e da não observância de estudos técnicos preliminares.
O parecer também afirma que a construção do terminal deveria estar condicionada à elaboração do Estudo de Impacto de Vizinhança e aos outros estudos técnicos pendentes. Para o MPC, esses documentos deveriam conduzir a correta execução da obra, evitando correções futuras e despesas adicionais ao poder público.
Na prática, o parecer reforça o que os documentos anteriores já indicavam: o terminal não dependia apenas de vontade política para entrar em funcionamento. Havia uma cadeia de entraves técnicos que precisava ser resolvida.
Os fatos documentados
| 2015 | Estudo da Logitrans previa modelo com pontos de integração e terminais descentralizados. |
| 2019 | Memorando administrativo alterou a lógica para um terminal urbano único. |
| 2020 | Obra do Terminal Urbano teve início. |
| 2023 | Corpo de Bombeiros alertou para impacto significativo na segurança do entorno. |
| 2023 | Prefeitura confirmou suspensão da obra do entorno até estudo técnico. |
| 2024 | Ministério Público de Contas apontou irregularidades técnicas e ausência de estudos preliminares. |
| 2024 | Géri Dutra gravou vídeo cobrando a entrega do terminal antes da campanha. |
| 2024 | Durante a campanha falou que a sua primeira ação de governo seria colocar em funcionamento o Terminal. |
| 2025 | Sua primeira ação de governo NÃO FOI colocar em funcionamento o Terminal. |
| 2026 | Terminal segue fechado e sem atender a população. |
Os documentos contam uma história que a população precisava conhecer
Ao longo desta reportagem, o Portal Verdades apresentou documentos produzidos pela própria Prefeitura de Pato Branco, pelo Corpo de Bombeiros e pelo Ministério Público de Contas do Paraná. Todos eles apontam que os entraves envolvendo o Terminal Urbano não surgiram depois da eleição e tampouco eram desconhecidos pelo poder público. Pelo contrário: tratava-se de questões técnicas, operacionais e de segurança oficialmente registradas muito antes de o tema se tornar um dos principais discursos da campanha eleitoral de 2024.
É justamente por isso que o vídeo gravado por Géri Dutra voltou a ganhar repercussão. Naquele momento, o então pré-candidato utilizava o Terminal Urbano como exemplo de uma obra que, segundo seu discurso, bastaria vontade política para entrar em funcionamento. Entretanto, os documentos oficiais mostram que a situação era muito mais complexa e dependia da solução de uma série de entraves já conhecidos pelos órgãos públicos.
Em uma democracia, é natural que candidatos façam críticas às gestões anteriores e apresentem propostas para solucionar problemas da cidade. O que também se espera é que esse debate ocorra com transparência e respeito às informações técnicas disponíveis, especialmente quando elas já constam em documentos oficiais produzidos pelo próprio poder público.
Passados mais de um ano e meio desde aquele discurso e já sob a atual administração, o Terminal Urbano continua fechado e sem atender a população. A estrutura permanece aguardando uma solução definitiva, enquanto milhares de usuários do transporte coletivo seguem sem usufruir do equipamento construído com recursos públicos.
Mais do que relembrar promessas ou discursos de campanha, esta reportagem teve como objetivo apresentar documentos oficiais para que cada cidadão possa compreender o contexto completo da obra. São registros públicos, produzidos por órgãos técnicos e de controle, que ajudam a reconstruir a cronologia dos fatos e permitem uma avaliação baseada em evidências, e não apenas em narrativas políticas.
Arquivos usados na reportagem
Por Gustavo - Portal Verdades / Fonte: Documentos oficiais da Prefeitura de Pato Branco, Corpo de Bombeiros, Câmara Municipal, Estudo de Impacto de Vizinhança e Ministério Público de Contas do Paraná.
