Enquanto faltam respostas em áreas essenciais, Prefeitura gastou R$ 14,5 mil para saber como a população consome informação

Enquanto moradores cobram respostas em áreas essenciais, a Prefeitura de Pato Branco pagou R$ 14,5 mil por uma pesquisa de opinião que, conforme o próprio material encaminhado à Câmara Municipal, não perguntou quais eram os principais problemas da cidade, quais serviços públicos mais preocupam a população ou quais prioridades deveriam orientar os investimentos do Município.

O levantamento foi enviado pela Prefeitura em resposta ao Requerimento nº 491/2026. Segundo o documento, a pesquisa teve como objetivo avaliar a efetividade da comunicação institucional da Prefeitura e das secretarias, além de mapear hábitos de consumo de mídia dos moradores de Pato Branco.

Na prática, o relatório apresentado se concentrou em perguntas sobre rádio, televisão, redes sociais, horários de consumo de informação e canais pelos quais a população acompanha os trabalhos da administração municipal. O material não mostra uma pesquisa voltada a identificar as principais demandas do cidadão, os bairros mais carentes de atenção ou os serviços públicos que precisam de resposta mais urgente.

Valor pago
R$ 14,5 mil
Nota Fiscal nº 77.372
Entrevistas realizadas
400
Pesquisa quantitativa em Pato Branco
Não se consideram bem informados
58,5%
Sobre os trabalhos da Prefeitura

O QUE FOI PESQUISADO

Levantamento mirou hábitos de mídia, não prioridades da população

A pesquisa foi realizada em Pato Branco nos dias 1º e 2 de julho de 2025, com 400 entrevistas, margem de erro de 4 pontos percentuais e nível de confiança de 95%, conforme consta no relatório anexado à resposta oficial.

Entre os temas abordados estão os meios pelos quais os entrevistados ficam sabendo dos trabalhos da Prefeitura, os horários em que ouvem rádio, os horários em que assistem televisão, as redes sociais mais utilizadas e a finalidade do uso dessas plataformas.

O ponto central está justamente no que não aparece como foco do levantamento. Pelo material encaminhado, a pesquisa não perguntou quais são os maiores problemas de Pato Branco, quais bairros mais precisam de atenção, quais serviços públicos apresentam maior insatisfação ou quais áreas deveriam receber prioridade na aplicação dos recursos municipais.

PONTO CENTRAL

A Prefeitura pagou por uma pesquisa que ajuda a gestão a entender onde, quando e como comunicar melhor suas ações. Mas o documento não mostra uma escuta voltada a identificar demandas concretas do munícipe, como saúde, filas, obras, manutenção urbana, trânsito, educação, transporte, coleta, iluminação pública ou prioridades de investimento.

RESULTADO INCÔMODO

Maioria diz não se considerar bem informada sobre os trabalhos da Prefeitura

Mesmo sendo uma pesquisa voltada à comunicação institucional, o levantamento trouxe um dado que chama atenção: 58,5% dos entrevistados disseram não se considerar bem informados sobre os trabalhos da Prefeitura. Apenas 40,5% responderam que se consideram bem informados.

O resultado expõe uma contradição relevante. A administração municipal pagou para medir comunicação e hábitos de mídia, mas a própria pesquisa aponta que a maioria dos entrevistados não se sente bem informada sobre aquilo que a Prefeitura realiza.

Esse dado é ainda mais sensível porque a comunicação pública, quando custeada com dinheiro do contribuinte, deve servir ao interesse coletivo, com informações úteis, prestação de contas, orientação ao cidadão e transparência sobre serviços públicos. Quando o levantamento se concentra mais em canais, horários e redes sociais, surge uma pergunta inevitável: qual foi o benefício direto dessa pesquisa para a população?

CANAIS DE INFORMAÇÃO

Conversas, rádio, jornal e WhatsApp aparecem à frente dos canais oficiais

Entre os meios pelos quais os entrevistados disseram ficar sabendo dos trabalhos da Prefeitura, o maior percentual foi de conversas com amigos, com 20,5%. Na sequência aparecem rádios da cidade, com 17,6%, jornal impresso, com 15,5%, grupos de WhatsApp, com 11,7%, site da Prefeitura, com 10,3%, mídias sociais do prefeito, com 9,2%, e mídias sociais da Prefeitura, com 5,4%.

O dado revela que os canais oficiais da administração não aparecem isoladamente como principal fonte de informação da população. Ao contrário, boa parte da informação sobre os trabalhos do poder público circula por meios informais, imprensa tradicional e grupos de mensagens.

Conversas com amigos 20,5%
Rádios da cidade 17,6%
Jornal impresso 15,5%
Grupos de WhatsApp 11,7%
Site da Prefeitura 10,3%
Mídias sociais do prefeito 9,2%
Mídias sociais da Prefeitura 5,4%

PONTO SENSÍVEL

Relatório separa redes do prefeito e redes da Prefeitura

Um detalhe do levantamento chama atenção: o relatório diferencia “mídias sociais do prefeito” de “mídias sociais da Prefeitura” como meios pelos quais os entrevistados ficam sabendo dos trabalhos realizados pelo Município.

A distinção não permite, sozinha, afirmar qualquer irregularidade. No entanto, ela levanta um debate importante sobre os limites entre comunicação institucional e exposição pessoal de agente público. Em uma administração pública, a divulgação oficial deve estar vinculada ao interesse público, aos serviços e às ações do Município, e não à promoção individual de autoridades.

Esse ponto ganha ainda mais relevância porque a comunicação institucional da Prefeitura já foi alvo de uma Comissão Especial de Inquérito na Câmara Municipal. Como mostrou o Portal Verdades em reportagem anterior, a CEI apontou indícios de promoção pessoal, ingerência inadequada e uso político da estrutura de comunicação pública, com encaminhamento do caso ao Ministério Público para análise.

Leia também: CEI expõe esquema de promoção pessoal dentro da Prefeitura e revela indícios graves de uso político da máquina pública.

Por isso, o uso de dinheiro público em pesquisas que também medem a força de canais pessoais de comunicação exige transparência, finalidade clara e demonstração objetiva de interesse público.

FINALIDADE DO GASTO

Documento não mostra pesquisa voltada às prioridades do cidadão

O ponto central da discussão não está apenas no valor pago, mas na finalidade da despesa. A pesquisa contratada com dinheiro público, conforme o material encaminhado à Câmara, concentrou-se em hábitos de mídia, canais de informação e percepção sobre a comunicação da Prefeitura.

Pelo conteúdo apresentado, o levantamento não teve como foco identificar as principais demandas da população, os bairros que mais precisam de atenção, os serviços públicos com maior índice de insatisfação ou as áreas que deveriam receber prioridade na aplicação dos recursos municipais.

Assim, embora a administração possa sustentar que a pesquisa serviria para melhorar a comunicação institucional, permanece a dúvida sobre o benefício direto do gasto para o munícipe, especialmente em um cenário no qual moradores cobram respostas em saúde, infraestrutura, obras, trânsito e demais serviços públicos.

ANÁLISE DO PORTAL VERDADES

Pesquisas podem ser instrumentos legítimos de gestão pública quando ajudam a identificar falhas, medir qualidade dos serviços, definir prioridades e orientar políticas públicas. No caso analisado, porém, o conteúdo apresentado está muito mais ligado à estratégia de comunicação da Prefeitura do que à escuta das necessidades concretas do cidadão.

MINISTÉRIO PÚBLICO

Caso será levado ao MP, que já analisa apontamentos sobre comunicação da Prefeitura

Diante dos elementos constantes no documento, o Portal Verdades encaminhará o caso ao Ministério Público para apreciação. O objetivo é solicitar que o órgão avalie, dentro de suas atribuições, a regularidade, a finalidade pública e a economicidade da despesa.

O pedido ganha peso porque o Ministério Público já recebeu apontamentos relacionados à comunicação institucional da Prefeitura a partir da CEI instaurada pela Câmara Municipal, que tratou de possíveis irregularidades, indícios de promoção pessoal e uso político da máquina pública.

A nova solicitação não parte da afirmação de que houve irregularidade comprovada nesta contratação específica. O pedido será para que o Ministério Público analise se a pesquisa teve justificativa administrativa suficiente, se o gasto apresentou interesse público direto e se os resultados foram efetivamente utilizados para aprimorar políticas públicas ou serviços oferecidos à população.

Também deverá ser submetido à análise o fato de o levantamento mencionar, separadamente, “mídias sociais do prefeito” e “mídias sociais da Prefeitura”, ponto que pode exigir esclarecimentos sobre os limites entre comunicação institucional, custeada pelo poder público, e eventual fortalecimento de canais pessoais de agente político.

INTERESSE PÚBLICO

A pergunta que fica: o que o cidadão ganhou com isso?

Em vez de perguntar o que a população espera da administração, quais problemas mais afetam os bairros ou quais serviços precisam melhorar, o levantamento buscou saber por quais meios as pessoas recebem informação, quais redes sociais utilizam e em quais horários consomem rádio e televisão.

Na prática, a pesquisa oferece dados úteis para quem deseja planejar divulgação, escolher canais de mídia e entender onde a mensagem da administração pode circular melhor. Mas pouco contribui, pelo material apresentado, para responder aquilo que mais interessa ao munícipe: quais problemas serão resolvidos, quais serviços serão melhorados e quais prioridades serão assumidas pela gestão.

Diante disso, a discussão não se limita ao valor de R$ 14,5 mil. A questão principal é a finalidade do gasto. Quando o dinheiro é público, a pergunta precisa ser direta: a despesa serviu para melhorar a vida do cidadão ou para aperfeiçoar a forma como a gestão comunica a si mesma?


O Portal Verdades seguirá acompanhando o caso. Caso a Prefeitura apresente novos documentos sobre o processo de contratação, a justificativa administrativa ou a aplicação prática dos dados levantados, as informações poderão ser acrescentadas à reportagem.

DOCUMENTO OFICIAL

Leia a resposta encaminhada pela Prefeitura à Câmara

Para garantir transparência e permitir que o leitor confira diretamente a origem das informações, o Portal Verdades disponibiliza abaixo o documento oficial encaminhado pela Prefeitura de Pato Branco à Câmara Municipal em resposta ao Requerimento nº 491/2026.

O material reúne o ofício de resposta, informações sobre o valor pago, a nota fiscal e o relatório da pesquisa de opinião citada nesta reportagem.

Se o documento não carregar corretamente no seu dispositivo, clique aqui para abrir o arquivo completo.

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