Copa de R$ 1,5 milhão terá ingressos e patrocínios; respostas ao MP ainda não esclarecem destino de toda a arrecadação

A Copa Intercontinental de Futsal receberá quase R$ 1,5 milhão de recursos públicos, mas também prevê receitas de bilheteria e patrocínios. Em manifestações encaminhadas à Promotoria, a MDF afirma que esses valores complementam o financiamento do evento, enquanto a CBFS declara não receber participação econômica. Documentos ainda deixam questões sobre a destinação e fiscalização das receitas.

Arena Cláudio Petrycoski com quadra de futsal e arquibancadas lotadas durante uma partida
Arena Cláudio Petrycoski, em Pato Branco. Imagem fornecida para ilustrar a reportagem.

A Copa Intercontinental de Futsal de 2026, que será realizada em Pato Branco com financiamento público de R$ 1.499.958,00, também contará com receitas comerciais provenientes de ingressos e patrocínios. A informação consta em manifestação apresentada pela empresa MDF Eventos Esportivos Ltda., contratada pela Prefeitura para organizar a competição. Entretanto, a documentação encaminhada ao Ministério Público do Paraná (MPPR) ainda não apresenta uma demonstração consolidada de quanto será arrecadado, quem receberá cada receita e qual será a destinação de eventual resultado financeiro positivo.

O Portal Verdades analisou a manifestação da MDF, a resposta assinada pelo prefeito Géri Dutra, o contrato administrativo e o novo ofício da Confederação Brasileira de Futsal (CBFS), incorporado ao Inquérito Civil nº 0105.26.001573-7 em 3 de novembro. Os documentos revelam que a empresa considera a exploração comercial parte do financiamento da competição, enquanto a Confederação afirma não receber valores provenientes de ingressos, patrocínios ou transmissão. A situação levanta uma questão de interesse público: como serão contabilizadas as receitas de um evento que recebe quase R$ 1,5 milhão de recursos estaduais e também utiliza uma arena pública?

FINANCIAMENTO DA COPA

Empresa confirma bilheteria e patrocínios como fontes de recursos

Na manifestação apresentada à Prefeitura e encaminhada à Promotoria em outubro, a MDF sustenta que o contrato de R$ 1.499.958,00 não corresponde necessariamente ao custo econômico integral da Copa Intercontinental. Segundo a empresa, o projeto envolve compromissos internacionais, estrutura operacional, comunicação e ações sociais que ultrapassariam o montante financiado pelo poder público.

A organizadora afirma que a parcela remanescente dos encargos seria suportada por recursos privados, incluindo bilheteria e patrocínios. No documento, essas receitas são apresentadas como fontes complementares de financiamento, e não como fundamento para aumentar automaticamente o valor contratado pela Prefeitura.

A empresa também reconhece que a apuração do custo global e do saldo necessário ao financiamento depende da conciliação entre despesas, recursos públicos, bilheteria, patrocínios e demais apoios econômicos, evitando duplicidades.

O QUE OS DOCUMENTOS INFORMAM
Contrato público R$ 1.499.958,00
Origem dos recursos Fundo Estadual do Esporte, por intermédio do Município
Bilheteria Informada pela MDF como fonte complementar de financiamento
Patrocínios Também apontados como fonte complementar
Receita total estimada Não demonstrada de forma consolidada nas manifestações examinadas
Resultado financeiro Depende de apuração de receitas, custos e regras aplicáveis

A explicação apresentada pela MDF é relevante para compreender o modelo adotado, mas não encerra a necessidade de transparência. Para avaliar o resultado econômico da operação, será necessário conhecer os custos totais efetivos, a receita prevista e realizada, os contratos comerciais e as obrigações assumidas com o Município.

BILHETERIA

A própria defesa reconhece que a arrecadação precisa ser regulamentada e comprovada

Um dos pontos mais importantes da manifestação está no capítulo dedicado ao cofinanciamento e à legalidade da cobrança de ingressos. A MDF defende que o apoio financeiro do poder público não determina, por si só, a gratuidade integral de uma competição esportiva. A empresa argumenta que a bilheteria pode representar uma fonte legítima de equilíbrio financeiro, desde que observadas as regras administrativas e contratuais aplicáveis.

A organizadora, entretanto, faz uma ressalva: a previsão genérica de direitos de exploração econômica no Termo de Referência não substitui a necessidade de estabelecer como a receita será administrada, quais gratuidades serão oferecidas e qual será a destinação dos valores.

A defesa informa que a MDF se dispõe a apresentar plano de bilheteria, preços, setores, capacidade autorizada, gratuidades, meias-entradas, relatórios da plataforma de venda, borderôs, extratos e conciliação das receitas e despesas.

A empresa também reconhece que eventual resultado positivo deve receber a destinação prevista nos instrumentos aplicáveis, sem ser tratado como valor de livre apropriação fora das condições do ajuste.

Portanto, a questão investigativa não é simplesmente a existência de ingressos pagos. O ponto central é saber quais regras foram aprovadas pelo Município, quem operacionalizará a arrecadação, como ela será fiscalizada e quais obrigações serão exigidas da contratada.

MANIFESTAÇÃO DA CBFS

Confederação afirma que não recebe dinheiro de ingressos, patrocínios ou transmissão

Uma nova informação foi incorporada ao inquérito no início de novembro. Em ofício assinado no dia 29 de outubro, o presidente da Confederação Brasileira de Futsal, Marcos Antônio Madeira, apresentou esclarecimentos solicitados pela Prefeitura de Pato Branco sobre a relação da entidade com a MDF Eventos Esportivos.

O documento, encaminhado pela administração municipal à Promotoria, afirma que a CBFS não obtém vantagens econômicas com a arrecadação da competição, incluindo bilheteria, patrocínios e transmissão. A Confederação acrescenta que a Copa Intercontinental de 2026 é idealizada e gerida pela MDF.

A entidade também confirma a existência de um vínculo contratual com a organizadora desde 2022, destinado a viabilizar a realização de eventos internacionais de futsal no Brasil. Conforme a CBFS, sua participação envolve principalmente a chancela esportiva, a inclusão no calendário nacional, o apoio institucional a procedimentos internacionais e a indicação de árbitros.

A manifestação esclarece a posição da Confederação, mas não demonstra, por si só, quem é o beneficiário final de cada fonte de arrecadação nem apresenta os contratos comerciais específicos do evento. Para essa conclusão, é necessário examinar os instrumentos celebrados entre a organizadora, patrocinadores, plataformas de ingressos e demais participantes.

EXPLORAÇÃO COMERCIAL

Documentação municipal reconhece direitos comerciais da organizadora

O Termo de Referência Ajustado, que integra o Processo Administrativo nº 113/2026, identifica a MDF como detentora de direitos de organização e exploração do evento. Essa condição foi utilizada pela Prefeitura como parte da justificativa para a contratação direta por inexigibilidade de licitação.

A existência desses direitos, entretanto, não dispensa a definição das condições econômicas da operação. É necessário distinguir a titularidade comercial da competição, o direito de explorar determinados espaços públicos e as obrigações estabelecidas no contrato financiado com recursos estaduais.

Essas preocupações também aparecem na representação apresentada ao Ministério Público pelos vereadores Lindomar Rodrigo Brandão e Alexandre Zoche. O documento solicita a apuração da titularidade e da destinação das receitas de ingressos, patrocínios, publicidade, transmissão, alimentação, bebidas e outras atividades comerciais desenvolvidas durante a competição.

Os representantes também questionam se houve avaliação de alternativas que permitissem ao Município obter receitas ou contrapartidas econômicas pela utilização de sua estrutura pública.

PUBLICIDADE E RECURSOS PÚBLICOS

Planilha prevê R$ 123 mil em estruturas de comunicação visual e publicidade

Outro aspecto merece atenção: a planilha contratual prevê despesas relacionadas à estrutura visual do evento. Conforme os valores relacionados na representação, estão previstos R$ 30 mil para comunicação visual da arena, R$ 15 mil para comunicação visual da quadra, R$ 15 mil para a testeira da arena, R$ 3 mil para o backdrop de imprensa e R$ 60 mil para painel de LED, totalizando R$ 123 mil.

Esses valores correspondem a itens previstos no orçamento contratado, não a despesas individualmente comprovadas como pagas. O questionamento é sobre o uso dessas estruturas, especialmente caso sejam utilizadas para exposição de marcas privadas e patrocinadores.

Há ainda uma particularidade jurídica: a cláusula 6.1.5 do Termo de Transferência dos recursos estaduais estabelece restrição ao pagamento de despesas de publicidade. A existência dessa cláusula não significa automaticamente que todas as estruturas de comunicação visual previstas no contrato sejam despesas publicitárias proibidas. Painéis, sinalização e equipamentos podem cumprir diferentes funções operacionais e esportivas.

Contudo, a documentação exige esclarecer a natureza de cada despesa, o conteúdo exibido, os beneficiários de eventual publicidade comercial e a compatibilidade da utilização dos recursos com as condições estabelecidas pelo Estado.

TRANSMISSÃO INTERNACIONAL

Contrato prevê R$ 112,5 mil para produção de imagens, enquanto MDF afirma ter cedido direitos gratuitamente

A produção audiovisual também faz parte do financiamento público. Os itens relacionados à coordenação, geração de imagens e equipe de transmissão somam R$ 112.500,00 na planilha contratual.

Em sua manifestação, a MDF esclarece que os direitos de transmissão da competição foram cedidos gratuitamente, sem recebimento de pagamento pela organizadora a esse título. A empresa ressalva, porém, que a cessão deverá ser comprovada por instrumento específico, com identificação das partes envolvidas e das condições estabelecidas.

Também faz uma distinção importante: o custo da produção das imagens não equivale necessariamente à receita pela cessão dos direitos de transmissão. Portanto, a existência de despesas públicas com equipamentos e equipes audiovisuais não demonstra, isoladamente, que houve venda de direitos ou remuneração irregular.

Permanece necessário esclarecer quais direitos de utilização das imagens foram assegurados à Prefeitura, quais arquivos e materiais serão disponibilizados ao Município e se existem receitas de publicidade ou outras formas de exploração associadas às transmissões.

GRATUIDADES E CONTRAPARTIDAS

MDF anuncia 500 ingressos gratuitos e contrapartidas estimadas em mais de R$ 600 mil

A organização também apresentou compromissos sociais vinculados à competição. Entre eles estão a disponibilização de 500 ingressos gratuitos, seminário aberto à comunidade, visitas de equipes internacionais a escolas municipais, distribuição de materiais esportivos e doação de uma quadra destinada a projeto social indicado pela Prefeitura.

Segundo a MDF, o conjunto dessas ações e de outros benefícios associados ao evento teria valor estimado superior a R$ 600 mil. A própria manifestação, entretanto, reconhece que a cifra ainda precisa ser detalhada por meio de memória de cálculo, identificação das fontes de financiamento e comprovação das entregas.

A empresa afirma que as contrapartidas deverão ser contabilizadas sem incluir novamente despesas já custeadas pelo contrato público ou por outros aportes destinados aos mesmos serviços.

No lançamento oficial da Copa, em 18 de setembro, o prefeito Géri Dutra também havia anunciado que o Município receberia uma parcela dos ingressos para distribuição gratuita à população. A manifestação posterior da MDF especifica 500 ingressos, mas a documentação examinada não permite concluir, sem outros instrumentos, se essa quantidade corresponde integralmente ao compromisso anunciado pelo prefeito.

Além da quantidade de ingressos, será necessário verificar quem terá direito às gratuidades, quais critérios serão utilizados, como ocorrerá a distribuição e quais registros comprovarão o cumprimento das obrigações.

RESPOSTA DA PREFEITURA

Géri promete prestação de contas e propõe ampliar fiscalização

A discussão sobre as receitas comerciais também aparece na resposta oficial apresentada pelo prefeito Géri Dutra ao Ministério Público em 27 de outubro. No Ofício nº 354/2026/GP, o Executivo decidiu não acatar a recomendação de anulação do contrato e defendeu a continuidade da competição.

Ao abordar a execução financeira, a Prefeitura reproduziu os esclarecimentos da MDF sobre a necessidade de conciliar despesas e receitas, inclusive bilheteria e patrocínios. O Município se comprometeu a apresentar documentação posterior dos valores efetivamente gastos e de sua compatibilidade com os preços de mercado.

A Administração também propôs discutir um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), com mecanismos adicionais de transparência e fiscalização. Entre as possibilidades mencionadas estão o controle da bilheteria, o acompanhamento das despesas, a comprovação dos serviços executados e a disciplina da utilização de espaços publicitários.

A proposta não equivale à celebração de um acordo. Nos documentos examinados até 3 de novembro, não foi identificada decisão conclusiva da Promotoria aceitando as condições apresentadas.

O QUE AINDA PRECISA SER ESCLARECIDO

Apuração depende da documentação econômica completa do evento

As manifestações apresentadas pela Prefeitura, pela MDF e pela CBFS oferecem explicações sobre a estrutura de financiamento da Copa, mas não apresentam, de maneira consolidada, todos os elementos necessários para determinar o resultado econômico da operação.

A apuração depende especialmente do plano de bilheteria e dos relatórios de vendas; dos contratos com patrocinadores e anunciantes; das autorizações para exploração comercial da Arena Cláudio Petrycoski; dos instrumentos de transmissão; da identificação das receitas e dos documentos que estabelecem as contrapartidas destinadas ao Município.

Também será necessário confrontar essas informações com os custos efetivos da competição, distinguindo os serviços financiados pelo contrato público das despesas adicionais efetivamente suportadas por recursos privados.

Não há, até aqui, demonstração documental suficiente para concluir que a MDF esteja se apropriando irregularmente de receitas, assim como ainda não é possível certificar o resultado econômico final da contratação. A cobrança de ingressos e a existência de patrocínios não configuram, por si sós, irregularidade. Sua regularidade depende das autorizações, dos instrumentos contratuais e das condições de prestação de contas.

A investigação precisa esclarecer não apenas quanto será gasto para realizar a Copa, mas também quanto o evento poderá arrecadar, quais receitas são privadas, quais direitos pertencem ao Município e quais benefícios serão efetivamente entregues à população.

ACOMPANHE O CASO

Portal Verdades acompanha os documentos do inquérito civil

A contratação já foi objeto de duas reportagens anteriores do Portal Verdades. A primeira apresentou a recomendação do Ministério Público para anulação do contrato. A segunda revelou a decisão do prefeito Géri Dutra de não acatar a medida e manter a contratação.

Leia a reportagem sobre a recomendação do MPPR.

Leia a reportagem sobre a decisão do prefeito de manter o contrato.

A MDF Eventos Esportivos também entrou em contato com o Portal Verdades manifestando interesse em prestar esclarecimentos. O espaço editorial permanece aberto para manifestações documentadas da empresa, da Prefeitura, da CBFS e dos demais envolvidos, inclusive pelo e-mail portalverdadespb@gmail.com.

O Portal Verdades continuará acompanhando o Inquérito Civil nº 0105.26.001573-7, respeitando o contraditório e distinguindo os questionamentos apresentados, as justificativas das partes e os fatos efetivamente comprovados.