Após dizer que não apoiaria candidato de Géri, servidor tem gratificação retirada pelo prefeito e aponta possível retaliação política

Após dizer que não apoiaria candidato de Géri, servidor tem gratificação retirada pelo prefeito e aponta possível retaliação política

Um servidor efetivo da Prefeitura de Pato Branco teve sua gratificação retirada por ato assinado pelo prefeito Géri Dutra depois de afirmar que não apoiaria o candidato defendido pelo grupo político do prefeito e que permaneceria fora da movimentação eleitoral. Antes da formalização da medida, o servidor procurou diretamente Géri, questionou a sequência dos acontecimentos e apontou que o corte poderia ser interpretado como uma possível retaliação política.

A resposta atribuída ao prefeito, apresentada ao Portal Verdades, foi curta: “A questão da interpretação é tua. A motivação da decisão é minha.”

Posteriormente, a gratificação foi efetivamente extinta por meio da Portaria nº 818, de 2 de setembro de 2026, assinada pelo próprio prefeito.

O caso ganha ainda um novo elemento: depois da retirada da gratificação e do desgaste provocado pelo episódio, o servidor abandonou a neutralidade que havia anunciado e passou a manifestar publicamente apoio a uma candidata que não integra o grupo político de Géri Dutra.

Por opção editorial e para preservar o servidor neste momento da apuração, o Portal Verdades não divulgará sua identidade.

Antes do corte

Servidor havia dito que ficaria fora da movimentação política

As mensagens apresentadas ao Portal Verdades mostram que o servidor já tinha conhecimento da movimentação para cancelar sua gratificação antes da publicação da portaria.

Foi então que decidiu procurar diretamente o prefeito e questionar o que estava acontecendo.

Na mensagem, afirma que havia deixado claro que não pretendia participar da disputa política e que não ajudaria nem atrapalharia nenhum dos lados.

“Justamente após eu deixar claro que não vou apoiar nem um lado nem outro, que não vou ajudar nem atrapalhar ninguém e que vou ficar quieto no meu canto, surge o pedido para cancelar a minha gratificação.”
Mensagem encaminhada pelo servidor ao prefeito

Segundo o servidor, a proximidade entre sua decisão de permanecer fora da campanha e o pedido para retirar a vantagem funcional tornou difícil não questionar se os dois acontecimentos poderiam estar relacionados.

Possível retaliação

Servidor cobra justificativa técnica para decisão

Na própria conversa, o servidor teve o cuidado de não apresentar a retaliação como um fato já comprovado.

Ele pediu que houvesse uma motivação administrativa e técnica concreta para a medida e alertou o prefeito sobre a forma como aquela sequência poderia ser interpretada.

“Espero realmente que existam motivos administrativos e técnicos concretos para justificar essa decisão, porque, diante de todo o contexto, a situação pode ser facilmente interpretada como uma retaliação por questões políticas e pelo simples fato de eu ter decidido não me envolver.”
Trecho da mensagem apresentada à reportagem

O servidor também afirmou que sempre teria cumprido suas obrigações profissionais e que, por isso, considerava necessário que uma decisão capaz de produzir prejuízo funcional ou financeiro estivesse devidamente fundamentada.

Ao final da mensagem, registrou que não estava fazendo uma acusação precipitada, mas que também não ignoraria os fatos e a sequência em que ocorreram.

A resposta de Géri

“A motivação da decisão é minha”

A resposta atribuída ao prefeito Géri Dutra foi direta.

“Bom dia, tem certeza mesmo que tá me fazendo esse tipo de questionamento? A questão da interpretação é tua. A motivação da decisão é minha.”
Resposta atribuída ao prefeito Géri Dutra

A frase ganha relevância porque veio imediatamente diante de um questionamento que mencionava possível retaliação política.

Na conversa apresentada ao Portal Verdades, Géri não informa qual seria a motivação técnica ou administrativa da decisão.

A resposta também não comprova que a motivação tenha sido eleitoral. Mas deixa aberta justamente a questão levantada pelo servidor: se o corte decorreu exclusivamente de uma necessidade administrativa, qual foi o fundamento concreto?

O ponto central

O servidor questionou diretamente uma possível retaliação política. O prefeito respondeu que a interpretação era do servidor e que a motivação da decisão era dele. A apuração agora precisa esclarecer qual foi essa motivação.

Gratificação é retirada

Decisão foi formalizada posteriormente pelo prefeito

A movimentação não permaneceu apenas no campo das mensagens.

A Portaria nº 818, de 2 de setembro de 2026, assinada por Géri Dutra, extinguiu a gratificação anteriormente concedida ao servidor.

O ato faz referência ao Memorando nº 26.572, de 31 de agosto de 2026, oriundo do Gabinete do Prefeito.

No texto publicado da portaria, entretanto, não aparece detalhada a situação funcional específica que teria motivado a retirada da vantagem.

O conteúdo integral desse memorando é uma das peças que podem esclarecer por que a gratificação foi retirada.

A ordem dos fatos

Quando ocorreu o corte, servidor ainda dizia que permaneceria neutro

Um detalhe é especialmente importante para compreender o episódio.

De acordo com as mensagens apresentadas à reportagem, quando soube da movimentação para retirada da gratificação, o servidor ainda não havia aderido publicamente a uma candidatura adversária ao grupo do prefeito.

Ao contrário: dizia diretamente a Géri que permaneceria fora da disputa, que não apoiaria nenhum dos lados e que ficaria “quieto no seu canto”.

A cronologia apresentada
PrimeiroServidor afirma que não apoiaria nenhum dos lados e permaneceria fora da campanha.
DepoisSegundo ele, surge a movimentação para cancelar sua gratificação.
QuestionamentoServidor procura Géri e alerta para uma possível interpretação de retaliação política.
RespostaPrefeito afirma: “A questão da interpretação é tua. A motivação da decisão é minha.”
Ato administrativoA gratificação é efetivamente retirada por portaria assinada por Géri.
PosteriormenteServidor deixa a neutralidade e passa a apoiar publicamente uma candidata fora do grupo político do prefeito.

Essa ordem dos acontecimentos é relevante porque mostra que, segundo o material apresentado ao Portal Verdades, o apoio público do servidor a uma candidatura adversária ocorreu somente depois do episódio envolvendo a gratificação.

Isso não demonstra que a retirada tenha sido uma retaliação. Mas impede que os fatos sejam apresentados em ordem inversa, como se o servidor já estivesse fazendo campanha aberta contra o grupo de Géri quando ocorreu a movimentação para extinguir a vantagem.

Depois da retirada

Servidor abandona neutralidade e passa a apoiar candidata fora do grupo de Géri

Depois de ter a gratificação efetivamente retirada e de interpretar a medida como uma possível retaliação política, o servidor mudou de posicionamento.

Ele passou a manifestar publicamente apoio a uma candidata que não integra o projeto eleitoral apoiado por Géri Dutra.

A mudança acrescenta uma nova etapa à história. Antes do conflito, o servidor dizia que não apoiaria ninguém. Depois da retirada da gratificação, decidiu assumir publicamente uma posição eleitoral contrária ao grupo que hoje comanda a Prefeitura.

Essa posterior manifestação política também não comprova a motivação da decisão administrativa anterior. Trata-se de uma escolha política do próprio servidor, tomada depois dos acontecimentos relatados.

A cronologia, porém, é fundamental para que cada fato seja analisado no momento correto em que ocorreu.

Um contexto maior

Caso surge em meio a questionamentos sobre cargos e gratificações

O episódio ocorre dentro de um cenário mais amplo já revelado pelo Portal Verdades.

Em reportagem publicada anteriormente, o Portal mostrou que suspeitas de pressão por apoio político em meio a cargos e gratificações deverão ser levadas ao Ministério Público.

A apuração envolve concessões e retiradas de gratificações, movimentações de cargos, mensagens, áudios, registros administrativos e manifestações eleitorais de pessoas ligadas à estrutura municipal.

Também vêm sendo identificadas situações em que servidores beneficiados por funções ou gratificações passaram, em período próximo, a demonstrar publicamente apoio à candidatura defendida pelo grupo político do prefeito.

A existência dessas coincidências não comprova troca de gratificação por apoio político. Servidores possuem direito de manifestação política, e alterações funcionais podem decorrer de fundamentos administrativos legítimos.

O que precisa ser esclarecido é se esses dois universos — administração e campanha — permaneceram separados.

O candidato apoiado por Géri

Administração vive intensa mobilização política durante a campanha

O prefeito Géri Dutra assumiu publicamente apoio à candidatura de Clodomir Ascari a deputado federal e participou diretamente de atos políticos ligados ao candidato.

Nos últimos dias, o lançamento da campanha em Pato Branco também chamou atenção pela presença relatada de ocupantes de cargos comissionados ligados às estruturas municipal e estadual.

A participação política pessoal de agentes públicos não é, por si só, proibida. O Tribunal Superior Eleitoral registra que a participação de servidor em campanha fora do horário normal de expediente não caracteriza automaticamente a conduta vedada prevista no art. 73, III, da Lei das Eleições. A legislação, por outro lado, proíbe a cessão ou utilização de serviços de servidores do Executivo para campanha durante o expediente normal, salvo as exceções legais.

É nesse cenário de forte movimentação eleitoral que o episódio da gratificação passa a adquirir relevância pública.

A pergunta central

Não apoiar o grupo pode interferir na vida funcional?

Um servidor público pode apoiar determinado candidato, apoiar um adversário ou simplesmente decidir permanecer neutro.

Uma gratificação, por sua vez, deve obedecer aos critérios legais e administrativos aplicáveis ao serviço público.

Se uma vantagem funcional fosse concedida como prêmio por adesão política ou retirada como punição pela ausência dela, a situação ultrapassaria uma simples divergência eleitoral.

Até o momento, não há conclusão de órgão competente afirmando que isso tenha acontecido neste caso.

O que existe é uma sequência documentada apresentada à reportagem: declaração de neutralidade, movimentação para retirada da gratificação, questionamento sobre possível retaliação, resposta do prefeito e posterior extinção da vantagem.

Somente depois, segundo os elementos apresentados, o servidor passou a apoiar publicamente outra candidatura.

Material deverá chegar ao MP

Mensagens serão analisadas junto a outros documentos

O caso deverá integrar o material que vem sendo reunido para encaminhamento ao Ministério Público.

Conforme já mostrou o Portal Verdades na reportagem sobre as suspeitas envolvendo pressão política, cargos e gratificações, o conjunto em preparação inclui documentos administrativos, portarias, mensagens, áudios, gravações e publicações em redes sociais.

O encaminhamento do material não significa comprovação de irregularidade. Caberá aos órgãos competentes verificar autenticidade, contexto, eventual relação entre os fatos e a existência ou não de alguma conduta ilícita.

A resposta que falta

Se “a motivação da decisão” era do prefeito, qual foi essa motivação?

A principal resposta ainda pode estar dentro da própria Prefeitura.

O Memorando nº 26.572, citado na portaria que extinguiu a gratificação, pode esclarecer quais razões administrativas foram utilizadas para fundamentar a decisão.

Se houve mudança de atribuições, reorganização interna, encerramento de alguma responsabilidade ou outro fundamento funcional, essa documentação poderá esclarecer o episódio.

Caso outros elementos demonstrem relação entre a vantagem funcional e o posicionamento político do servidor, o caso poderá exigir análise sob outras perspectivas pelos órgãos competentes.

O que ainda precisa ser esclarecido
MotivaçãoQual foi a razão concreta para a retirada da gratificação?
MemorandoO que consta integralmente no Memorando nº 26.572?
AtribuiçõesO servidor deixou de exercer alguma atividade que justificava a gratificação?
CritérioOs mesmos critérios são aplicados aos demais servidores que recebem vantagens semelhantes?
PolíticaA decisão do servidor de não apoiar a candidatura do grupo teve alguma influência?
CronologiaPor que a retirada aconteceu antes de o servidor passar a apoiar publicamente outra candidata?

Por enquanto, a sequência precisa ser tratada exatamente como os documentos e mensagens permitem.

O servidor dizia que ficaria fora da campanha. A gratificação foi retirada. Ele questionou uma possível retaliação e ouviu do prefeito que “a motivação da decisão é minha”. Só depois decidiu abandonar a neutralidade e apoiar abertamente outra candidatura.

A suspeita existe. A conclusão, não.

Agora, o ponto central é descobrir qual foi a motivação administrativa que levou o prefeito a retirar a gratificação.

Fonte: Portaria nº 818/2026, mensagens e documentos apresentados ao Portal Verdades, reportagem anterior do Portal Verdades e Tribunal Superior Eleitoral.

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