A Expopato 2025 terminou em novembro, os palcos foram desmontados e o evento deixou de ocupar o centro do debate público em Pato Branco. Para o Ministério Público do Paraná, porém, a apuração das contas ainda não terminou. Documentos recentes mostram que, entre o fim de julho e o início de agosto de 2026, a Promotoria continuava realizando diligências para reconstruir o fluxo financeiro da feira e permitir uma auditoria técnica sobre o resultado que chegou aos cofres municipais.
O Portal Verdades teve acesso à íntegra do Inquérito Civil nº 0105.25.001090-4 e analisou 925 documentos, que somam mais de 9 mil páginas. O procedimento começou em agosto de 2025 com questionamentos sobre os valores destinados à contratação de shows, mas avançou ao longo dos meses para uma apuração muito mais ampla envolvendo orçamento público, contratos comerciais, bebidas, camarotes, áreas VIP, bilheteria, prestação de contas e movimentações bancárias.
O ponto central neste momento é que ainda não há, nos documentos analisados, uma conclusão técnica definitiva do Ministério Público atestando se o lucro apurado e transferido ao Município foi calculado corretamente.
A existência de diligências e auditoria pendente não significa que o Ministério Público tenha constatado fraude, desvio ou dano ao erário. Significa que a apuração permanece aberta e que o órgão ainda busca elementos técnicos para conferir receitas, despesas, movimentações bancárias e o resultado financeiro da Expopato.
Auditoria
A pergunta que o Ministério Público ainda quer responder
Em 18 de maio de 2026, após meses de requisições e recebimento de documentos complementares, a Promotoria determinou que o Inquérito Civil fosse encaminhado ao Centro de Apoio Técnico à Execução, o CAEx, para análise especializada.
Entre os questionamentos formulados estavam a correspondência entre as despesas e a realização da feira, a compatibilidade dos pagamentos com o plano de trabalho, a conferência dos saldos bancários e a correta identificação das entradas e saídas financeiras.
Uma das perguntas encaminhadas ao setor técnico sintetiza o estágio atual da investigação:
A pergunta é relevante porque demonstra que, apesar da prestação de contas já ter sido apresentada, o próprio Ministério Público considerou necessária uma verificação técnica independente para confirmar o cálculo do resultado financeiro destinado ao Município.
Prestação de contas
R$ 536 mil foram transferidos ao Município
Na documentação encaminhada durante o inquérito, foi informado que o resultado financeiro da organização da Expopato gerou uma transferência de R$ 536.257,78 para o Município de Pato Branco.
O extrato bancário anexado ao procedimento registra a transferência de R$ 536.257,78 ao Município em 2 de dezembro de 2025.
No dia anterior, 1º de dezembro, a mesma conta registrou um pagamento de R$ 197.050 à empresa Diamond Entretenimento Ltda., ligada à operação da arena de shows, camarotes e áreas VIP da Expopato.
Após esse pagamento, o extrato apontava saldo de R$ 537.920,93. No dia seguinte, ocorreu a transferência dos R$ 536.257,78 ao Município, restando R$ 1.663,15 na conta, valor relacionado, conforme a documentação apresentada posteriormente, a retenções tributárias.
A movimentação bancária demonstra que o repasse ao Município efetivamente ocorreu. O que permanece sujeito à análise técnica é a etapa anterior: se todas as receitas e despesas foram corretamente contabilizadas e se o resultado que levou aos R$ 536 mil estava correto.
Bilheteria
MP disse que documentos inicialmente não permitiam calcular o lucro real
A necessidade de aprofundar a conferência das contas ficou explícita em despacho de 5 de março de 2026.
Ao examinar a documentação apresentada até aquele momento, a Promotoria requisitou extratos bancários completos, comprovantes de despesas e informações relativas à comercialização de ingressos.
Sobre a bilheteria, o Ministério Público registrou que os valores não estavam devidamente identificados entre as receitas apresentadas, circunstância que, naquele estágio da apuração, impedia uma análise segura do lucro real obtido com a feira.
Após novas requisições, foram apresentados relatórios relacionados às vendas de áreas VIP, mesas e camarotes.
Um conjunto de informações apresentado nos autos aponta R$ 857.530 em valores vinculados às vendas. Na mesma documentação, uma consolidação de borderôs classificados como vendas online totaliza R$ 673.860.
Os documentos trabalham com bases e relatórios distintos. Por isso, não é possível simplesmente subtrair os valores e tratar a diferença como dinheiro ausente ou irregularidade.
A análise técnica deverá estabelecer quais informações se sobrepõem, quais representam modalidades diferentes de comercialização e qual foi efetivamente a receita bruta considerada no fechamento financeiro da arena paga da Expopato.
CAEx
Setor técnico disse que poderia conferir o lucro, mas pediu dados bancários em outro formato
Em 15 de junho de 2026, o CAEx respondeu à Promotoria e informou que possuía condições técnicas de analisar parte relevante dos quesitos apresentados.
Entre as análises possíveis estavam a conferência das receitas e despesas, a verificação de documentos fiscais, a reconstrução do fluxo financeiro e a confirmação do cálculo do lucro destinado ao Município.
A auditoria, entretanto, não foi realizada naquele momento.
O motivo foi técnico: os extratos da conta bancária utilizada pela organização estavam juntados ao procedimento em formato PDF. Para realizar a investigação financeira de maneira estruturada, o CAEx informou ser necessário obter as movimentações no padrão do SIMBA — Sistema de Investigação de Movimentações Bancárias.
O sistema permite trabalhar com dados bancários estruturados, possibilitando identificar de maneira mais precisa valores, datas, origem dos créditos, destino dos pagamentos e contrapartes envolvidas nas transações.
O CAEx, portanto, não aprovou nem rejeitou as contas. O setor deixou aberta a possibilidade de nova análise após o cumprimento das diligências necessárias.
Diligências recentes
MP requisitou movimentações bancárias no fim de julho
A partir da orientação do setor técnico, o Ministério Público passou a buscar exatamente os dados necessários para permitir a auditoria.
O presidente do Sindicato Patronal do Comércio Varejista de Pato Branco, Ulisses Piva, assinou autorização formal para que as movimentações da conta utilizada durante a organização da feira fossem fornecidas ao Ministério Público.
Com a autorização, em 28 de julho de 2026, a Promotoria expediu o Ofício nº 570/2026 ao Sicoob.
O documento requisitou a cópia integral das transações realizadas na conta corrente nº 10.376-4, agência 4390, no período de 1º de julho a 16 de dezembro de 2025, para processamento por meio do SIMBA.
Foi criado para a diligência o caso nº 020-MPPR-002168-03.
Nos documentos imediatamente posteriores consta que a solicitação foi recebida pelo setor responsável e encaminhada para atendimento da instituição financeira.
É importante destacar que os documentos analisados não mostram uma quebra judicial de sigilo bancário. O fornecimento foi autorizado formalmente pelo representante da entidade titular da conta e requisitado pelo Ministério Público no âmbito do Inquérito Civil.
Até o documento nº 925, não consta nos autos analisados o resultado da reconstrução dessas movimentações ou uma auditoria conclusiva realizada a partir dos dados do SIMBA.
Tribunal de Contas
Promotoria também foi atrás de informações do TCE-PR
A investigação também alcançou os recursos estaduais utilizados na Expopato.
De acordo com a prestação apresentada, o Município recebeu R$ 609.414,06 por meio do Convênio nº 0456/2025 firmado com a Secretaria de Estado do Turismo.
Foram informadas despesas de aproximadamente R$ 329.465,50 com itens como segurança desarmada, banheiros químicos, painel de LED e geradores de energia.
O saldo não utilizado, acrescido dos rendimentos da aplicação financeira, teria sido devolvido ao Estado.
A prestação de contas do convênio tramita no Sistema Integrado de Transferências do Tribunal de Contas sob o nº 76572/SETU.
Seguindo recomendação do CAEx, em 3 de agosto de 2026 a Promotoria solicitou ao presidente do TCE-PR o compartilhamento de informações, relatórios e eventuais apontamentos técnicos existentes sobre esse convênio.
A data é relevante: mostra que, poucos dias antes desta reportagem, o Ministério Público ainda estava buscando elementos para complementar a análise financeira da feira.
Dinheiro público
Prestação aponta mais de R$ 3,4 milhões em despesas públicas
Na documentação apresentada ao Ministério Público, a Prefeitura consolidou R$ 3.481.619,05 em despesas públicas brutas relacionadas à Expopato.
| Shows pagos diretamente pelo Município | R$ 3.019.320,00 |
| Outras despesas municipais apresentadas | R$ 132.833,55 |
| Recursos estaduais efetivamente executados | R$ 329.465,50 |
| Total apresentado | R$ 3.481.619,05 |
A Prefeitura sustentou durante o procedimento que os shows contratados diretamente pelo Município tiveram acesso gratuito à população e que a feira também produziu retorno econômico e social.
Por isso, não é tecnicamente correto comparar apenas o valor gasto pelo poder público com os R$ 536 mil transferidos pela organização e classificar a diferença automaticamente como prejuízo.
A questão que permanece sob análise do Ministério Público é diferente: saber se todas as receitas comerciais foram consideradas, se as despesas descontadas estavam devidamente comprovadas e se o resultado financeiro final destinado ao Município foi calculado corretamente.
Origem do caso
Investigação começou com os gastos dos shows e ganhou novas frentes
O procedimento teve início em 19 de agosto de 2025, após denúncia anônima questionar os valores destinados à contratação de apresentações artísticas para a Expopato.
No mesmo dia, o Ministério Público requisitou ao prefeito Géri Dutra informações sobre as dotações orçamentárias utilizadas, a finalidade pública das despesas, o retorno esperado e a existência de convênios ou outras fontes de financiamento.
O que inicialmente era uma Notícia de Fato foi convertido, em 1º de outubro de 2025, no Inquérito Civil nº 0105.25.001090-4.
A partir dali, o escopo aumentou.
A Promotoria passou a analisar abertura de créditos suplementares, termos de cooperação firmados com entidades privadas, exploração comercial do evento e contratos relacionados à estrutura da feira.
Alguns desses contratos foram questionados formalmente pelo Ministério Público antes mesmo da realização da Expopato e sofreram alterações durante a investigação.
Essas situações serão detalhadas nos próximos capítulos desta série.
O que ainda não está definido
Investigação continua aberta e não há conclusão definitiva sobre irregularidade
Apesar do grande volume de documentos já reunidos, a análise do procedimento exige uma distinção fundamental entre aquilo que está sendo investigado e aquilo que já foi efetivamente concluído.
Até o último documento analisado pelo Portal Verdades, não consta arquivamento do Inquérito Civil nem laudo financeiro definitivo do CAEx validando o resultado da feira.
Também não há, nos documentos analisados, conclusão definitiva afirmando a existência de fraude, desvio de recursos, superfaturamento ou dano ao erário.
Por outro lado, as diligências recentes demonstram que a Promotoria ainda não encerrou a conferência financeira.
O MP tentou encaminhar o caso para auditoria técnica, recebeu a orientação de obter os dados bancários em formato estruturado, requisitou essas informações ao Sicoob e ainda procurou o Tribunal de Contas para reunir elementos complementares.
Portanto, embora a Expopato tenha terminado há aproximadamente nove meses, a análise das contas continua em andamento dentro do Ministério Público.
Série especial
Expopato: as contas ainda não fecharam
Esta reportagem abre uma série especial do Portal Verdades baseada na análise dos 925 documentos que integram o Inquérito Civil nº 0105.25.001090-4.
Nos próximos capítulos, o Portal Verdades vai mostrar como R$ 3,1 milhões foram remanejados de outras dotações para reforçar o orçamento destinado à Expopato; os questionamentos do Ministério Público sobre um contrato comercial que começou em R$ 450 mil e terminou em R$ 200 mil; a exploração financeira de camarotes e áreas VIP; e um raio-X das receitas, despesas e valores que retornaram diretamente ao Município.
A série também acompanhará as próximas movimentações do Inquérito Civil, especialmente a eventual conclusão da auditoria técnica após a obtenção dos dados bancários requisitados pelo Ministério Público.
Fonte documental: Inquérito Civil MPPR nº 0105.25.001090-4, documentos 1 a 925.
Por Gustavo - Portal Verdades / Fonte: Ministério Público do Paraná
