Prefeitura remanejou R$ 3,1 milhões de obras, educação, meio ambiente e tecnologia para reforçar orçamento da Expopato

Prefeitura remanejou R$ 3,1 milhões de obras, educação, meio ambiente e tecnologia para reforçar orçamento da Expopato

Especial | Expopato: as contas ainda não fecharam

Esta é a segunda reportagem da série especial “Expopato: as contas ainda não fecharam”, produzida pelo Portal Verdades a partir da análise de 925 documentos do Inquérito Civil nº 0105.25.001090-4, do Ministério Público do Paraná.

No primeiro capítulo, mostramos que, mesmo meses depois do encerramento da Expopato 2025, o Ministério Público ainda mantém diligências para conferir receitas, despesas, movimentações bancárias e verificar se o resultado financeiro repassado ao Município foi calculado corretamente.

Agora, a série volta um passo para mostrar de onde saiu parte do dinheiro usado para reforçar o orçamento da feira.

Documentos analisados pelo Portal Verdades mostram que a Prefeitura de Pato Branco remanejou R$ 3,1 milhões que estavam previstos em dotações de Engenharia e Obras, Educação, Meio Ambiente e Ciência, Tecnologia e Inovação para reforçar a ação orçamentária utilizada na realização da Expopato.

Entre as dotações atingidas aparecem recursos ligados à manutenção do britador e da usina de asfalto, implantação de câmeras de monitoramento em escolas municipais, estrutura relacionada ao atendimento de animais e projetos de tecnologia e energia.

Remanejamento
R$ 3,1 mi
Decreto nº 10.591/2025
Engenharia e Obras
R$ 1,84 mi
Maior parcela anulada
Ciência e Tecnologia
R$ 1,10 mi
Segunda maior parcela

De onde veio o dinheiro

Quatro áreas tiveram dotações reduzidas

O Decreto nº 10.591/2025 distribui os R$ 3,1 milhões entre anulações de dotações vinculadas a quatro áreas da administraç ão municipal.

Engenharia e Obras R$ 1.842.971,15
Educação R$ 53.927,61
Meio Ambiente R$ 100.000,00
Ciência, Tecnologia e Inovação R$ 1.103.101,24
Total R$ 3.100.000,00

A maior parte saiu da área de Engenharia e Obras. Sozinha, ela respondeu por aproximadamente 59% de todo o valor remanejado.

Engenharia e Obras

R$ 1,84 milhão saiu de dotações da área

A Secretaria de Engenharia e Obras teve R$ 1.842.971,15 anulados em dotações que posteriormente ajudaram a formar o reforço orçamentário de R$ 3,1 milhões.

Os documentos apontam reduções em dotações relacionadas a obras, instalações, aquisição de imóveis e manutenção da infraestrutura municipal.

Entre os itens aparece uma redução de R$ 150 mil em dotação vinculada à manutenção do britador e da usina de asfalto.

Um dos pontos do decreto

R$ 150 mil que estavam vinculados à manutenção do britador e da usina de asfalto aparecem entre os recursos anulados para compor o remanejamento destinado à ação de feiras e exposições.

A informação é relevante porque o britador e a usina de asfalto integram a estrutura utilizada pelo Município em atividades relacionadas à manutenção de vias e produção de materiais para obras públicas.

Por outro lado, apenas a existência da anulação não permite afirmar que a estrutura tenha deixado de receber manutenção. Para isso, seria necessário acompanhar a execução orçamentária posterior e identificar se houve recomposição por outra dotação ou fonte de recursos.

Educação

Dotação para câmeras em escolas perdeu R$ 53,9 mil

Na Educação, o Decreto nº 10.591/2025 anulou R$ 53.927,61 de uma dotação relacionada à implantação de câmeras de monitoramento nas escolas municipais.

O valor passou a integrar o conjunto de recursos utilizados para reforçar a dotação destinada à realização de feiras e exposições.

O documento comprova o remanejamento do saldo, mas não demonstra, isoladamente, que o projeto de monitoramento das escolas tenha sido cancelado.

Essa é uma distinção importante: uma dotação pode ser anulada e posteriormente uma mesma ação ser executada com outra fonte ou outro crédito orçamentário.

Para saber o impacto efetivo, seria necessário verificar se as câmeras foram de fato implantadas e de onde vieram os recursos utilizados posteriormente.

Meio Ambiente

R$ 100 mil vinculados a estrutura para animais também foram remanejados

Outra redução atingiu uma dotação da área ambiental.

O decreto anulou R$ 100 mil vinculados a ação relacionada à estrutura de apoio e passagem de animais.

Esse recurso também foi direcionado para formar os R$ 3,1 milhões destinados ao reforço orçamentário da Expopato.

Assim como nos demais casos, os documentos analisados não permitem afirmar apenas com base no remanejamento se a iniciativa foi abandonada, adiada ou posteriormente custeada por outro recurso.

Ciência e Tecnologia

Mais de R$ 1,1 milhão saiu de dotações da área

A segunda maior parcela do remanejamento veio da área de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Ao todo, foram anulados R$ 1.103.101,24.

Nos documentos aparecem dotações relacionadas a iniciativas envolvendo energia solar em imóveis públicos, sinalização semafórica, feiras de tecnologia e estrutura vinculada ao polo tecnológico.

Quando esse valor é somado aos R$ 1,84 milhão de Engenharia e Obras, aos R$ 53,9 mil da Educação e aos R$ 100 mil do Meio Ambiente, chega-se exatamente aos R$ 3,1 milhões transferidos para a ação orçamentária utilizada na Expopato.

Orçamento da feira

Ao todo, ação recebeu R$ 3,9 milhões em suplementações

Os R$ 3,1 milhões não foram o único reforço realizado durante 2025.

Segundo as informações encaminhadas pela contabilidade municipal ao Ministério Público, a ação orçamentária utilizada para a realização da Expopato recebeu duas suplementações relevantes.

A primeira, formalizada pelo Decreto nº 10.387/2025, foi de R$ 800 mil.

Posteriormente, vieram os R$ 3,1 milhões do Decreto nº 10.591/2025.

Primeira suplementação
R$ 800 mil
Decreto nº 10.387/2025
Segunda suplementação
R$ 3,1 mi
Decreto nº 10.591/2025
Total suplementado
R$ 3,9 mi
Ao longo de 2025

Somados, os dois reforços chegaram a R$ 3,9 milhões.

O crescimento da dotação passou a integrar os questionamentos feitos pelo Ministério Público durante a apuração das despesas relacionadas à feira.

O que a Prefeitura explicou

Município disse que havia saldos que não seriam utilizados

Durante o Inquérito Civil, a Prefeitura apresentou justificativas para as suplementações e para os remanejamentos realizados.

Segundo o Município, a Expopato não era realizada havia alguns anos, o que teria dificultado a elaboração de uma previsão orçamentária precisa quando o orçamento anual foi preparado.

A administração também sustentou que a Lei Orçamentária Anual permitia a realização de suplementações dentro dos limites legais.

Sobre as dotações anuladas, a Prefeitura informou ao Ministério Público que os secretários das áreas envolvidas teriam sido consultados e que os valores correspondiam a saldos que não seriam utilizados até o encerramento do exercício.

O Município afirmou ainda que determinadas obras e projetos contavam ou poderiam contar com outras fontes de financiamento.

O que o documento prova — e o que não prova

O Decreto nº 10.591/2025 comprova que R$ 3,1 milhões foram retirados de dotações de outras áreas e direcionados para reforçar a ação orçamentária utilizada na Expopato.

O decreto, sozinho, não comprova que as ações originalmente previstas deixaram de ser executadas nem que o remanejamento tenha sido ilegal.

A pergunta que fica

O que aconteceu depois com os projetos que perderam orçamento?

O remanejamento está documentado. O próximo passo é descobrir o impacto prático dessa decisão.

Depois da retirada de R$ 150 mil da dotação ligada ao britador e à usina de asfalto, houve reposição do recurso?

As câmeras previstas para as escolas foram instaladas?

A estrutura relacionada ao atendimento de animais saiu do papel?

Os projetos de energia, tecnologia e infraestrutura que tiveram dotações reduzidas foram executados com recursos de outras fontes?

Essas respostas não aparecem de forma conclusiva apenas nos documentos que demonstram o remanejamento.

Para chegar a elas, é necessário acompanhar a execução do orçamento municipal após o decreto, verificar os empenhos e pagamentos realizados e identificar se houve recomposição das dotações por outras fontes.

Essa análise é importante porque permite distinguir duas situações bastante diferentes: uma simples reorganização contábil, na qual os projetos continuaram sendo executados, ou uma alteração de prioridades que tenha produzido efeitos concretos em outras áreas da administração.


Série especial

Expopato: as contas ainda não fecharam

Esta reportagem integra a série especial do Portal Verdades baseada na análise dos 925 documentos do Inquérito Civil nº 0105.25.001090-4, do Ministério Público do Paraná.

No primeiro capítulo, o Portal Verdades mostrou que, meses depois do encerramento da Expopato 2025, o Ministério Público ainda realizava diligências financeiras para permitir uma auditoria sobre receitas, despesas e o resultado transferido ao Município.

Agora, os documentos revelam outra parte da história: antes mesmo de a feira acontecer, milhões de reais precisaram ser incorporados à ação orçamentária destinada ao evento, e parte desse dinheiro veio de dotações originalmente previstas para outras áreas do Município.

A série continuará acompanhando tanto o fechamento financeiro da Expopato quanto os efeitos dos remanejamentos realizados para viabilizar o evento.

Fonte documental: Inquérito Civil MPPR nº 0105.25.001090-4, Decreto Municipal nº 10.591/2025 e documentos da Prefeitura de Pato Branco juntados ao procedimento.