A realidade também merece destaque: após prêmio, demora na UPA volta a provocar reclamação

A realidade também merece destaque: após prêmio, demora na UPA volta a provocar reclamação

Dois dias depois de a secretária municipal de Saúde de Pato Branco, Márcia Fernandes de Carvalho, receber um prêmio que a apresentou como a secretária “mais atuante e lembrada pela população”, a realidade enfrentada por quem procura o serviço público voltou a provocar reclamação. Na tarde desta segunda-feira (31), um pai relatou demora no atendimento pediátrico da UPA enquanto aguardava atendimento para o filho com febre.

O relato foi encaminhado ao vereador Rafael Foss e veio acompanhado de uma imagem da sala de espera, onde aparecem diversas famílias com crianças. Segundo o pai, ele chegou à unidade por volta das 14h e, às 16h49, ainda aguardava atendimento. Também afirmou que havia famílias esperando desde o período da manhã e que algumas estariam desistindo diante da demora.

DO PALCO À SALA DE ESPERA

O contraste apareceu apenas dois dias depois

No sábado (29), o cenário era outro. Márcia esteve entre os homenageados do Destaques do Ano 2026, promovido pelo Jornal de Pato Branco/Jornal de Beltrão. Na divulgação do reconhecimento, a gestora foi apresentada como a secretária municipal mais atuante e lembrada pela população.

A premiação já havia provocado repercussão justamente porque a Saúde está entre as áreas mais sensíveis da administração municipal e vem sendo alvo de cobranças relacionadas ao acesso a consultas, exames, especialistas e outros atendimentos.

Agora, apenas dois dias depois da cerimônia, um novo relato expõe o contraste entre o reconhecimento recebido pela responsável pela pasta e a experiência de uma família que procurou atendimento público.

“Meu piazinho está com febre. Cheguei aqui duas horas da tarde que eu trouxe ele. Tem crianças para atendimento, algumas estão desde manhã aqui e até agora não deram um parecer do porquê da demora.”
Relato encaminhado ao vereador Rafael Foss

Em outra mensagem, o pai afirmou que havia demora na pediatria e que alguns responsáveis estariam deixando a unidade sem concluir o atendimento dos filhos.

A fotografia encaminhada junto ao relato mostra adultos e crianças aguardando na sala de espera. A imagem, entretanto, não permite determinar o tempo de espera de cada paciente, o número exato de pessoas aguardando nem quantos profissionais estavam trabalhando naquele momento.

A SAÚDE DO TROFÉU E A SAÚDE DA ESPERA

Ser lembrado pode ter significados diferentes para quem depende do atendimento

O episódio chama atenção justamente pelo momento em que acontece. O prêmio recebido por Márcia reconhece a lembrança registrada pela pesquisa realizada pela organização do evento. Isso não equivale, porém, a uma pesquisa de satisfação dos usuários do SUS nem a uma avaliação técnica da qualidade da rede municipal.

Para quem depende da Saúde pública, a avaliação acontece de outra maneira: no tempo necessário para conseguir uma consulta, na espera por um exame, no acesso ao especialista e, em situações como a relatada nesta segunda-feira, no período passado dentro de uma unidade aguardando atendimento para um filho doente.

O contraste

No sábado, a secretária foi reconhecida como uma das mais atuantes e lembradas. Na segunda-feira, um pai procurou ajuda para reclamar da demora enquanto aguardava atendimento para o filho com febre. A realidade de quem utiliza o serviço público também merece destaque.

A CRÍTICA NÃO É A QUEM ESTÁ NO PLANTÃO

Profissionais da linha de frente também enfrentam a pressão do sistema

É importante separar a cobrança sobre a gestão municipal do trabalho realizado pelos profissionais que estão diariamente dentro das unidades de Saúde.

Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, recepcionistas e demais trabalhadores da linha de frente lidam diretamente com pacientes, familiares, urgências e uma rotina de pressão que aumenta ainda mais quando a demanda supera a capacidade de atendimento disponível naquele momento.

Por isso, um relato de demora não pode automaticamente ser transformado em acusação contra quem está cumprindo o plantão. Também não é possível, apenas pela fotografia e pelas mensagens recebidas, afirmar se havia equipe incompleta, falta de profissionais ou alguma intercorrência específica nesta segunda-feira.

Mas situações de espera prolongada levantam uma cobrança legítima sobre quem administra o sistema: é responsabilidade da gestão dimensionar equipes, organizar escalas, prever demanda, garantir estrutura e oferecer condições para que os profissionais consigam desempenhar seu trabalho com segurança e dignidade.

Cobrar a Saúde não é atacar quem atende. É cobrar de quem administra as condições necessárias para que os profissionais consigam atender.
Portal Verdades

Muitas vezes, quem está atrás do balcão, no consultório ou dentro da enfermagem também enfrenta as consequências de problemas que não decidiu. É justamente por respeito a esses trabalhadores que a discussão sobre demora precisa alcançar estrutura, planejamento e gestão, e não simplesmente procurar culpados entre aqueles que estão atendendo.

ATENDIMENTO NÃO SEGUE APENAS ORDEM DE CHEGADA

Classificação de risco precisa ser considerada

Outro ponto necessário é que unidades de urgência e emergência não atendem exclusivamente pela ordem de chegada. Os pacientes passam por classificação de risco, e situações consideradas mais graves podem receber prioridade mesmo que tenham chegado posteriormente.

Isso significa que o tempo de espera, isoladamente, não permite concluir que houve negligência ou atendimento irregular no caso relatado.

Por outro lado, a classificação de risco não elimina a necessidade de transparência, organização e capacidade adequada de atendimento, especialmente quando famílias relatam permanecer durante horas aguardando e dizem não receber uma previsão sobre quando serão chamadas.

FILAS JÁ VINHAM SENDO COBRADAS

Problema da espera não apareceu nesta segunda-feira

A discussão sobre tempo de espera na Saúde municipal já vinha chegando ao Legislativo antes do episódio da UPA.

Neste mês, os vereadores Rafael Foss e Rodrigo José Correia apresentaram requerimento solicitando ao Executivo informações sobre o tempo médio de espera para consultas e exames no SUS municipal após o agendamento.

A própria Secretaria também já reconheceu publicamente a existência de filas ao tratar do absenteísmo. Em fevereiro, o Município informou que faltas de pacientes a consultas, exames e procedimentos acabam desperdiçando vagas, aumentando a espera e atrasando o tratamento de outros usuários.

O absenteísmo é um problema real e exige responsabilidade também dos pacientes. Mas não encerra a discussão sobre capacidade de atendimento, dimensionamento das equipes e gestão das filas.

O PRÊMIO E A REALIDADE

Reconhecimento não encerra a cobrança sobre a Saúde

Márcia tem o direito de comemorar o reconhecimento recebido no fim de semana. Da mesma forma, ações positivas desenvolvidas pela Secretaria devem ser reconhecidas quando produzem resultado para a população.

Mas um prêmio não encerra a fiscalização sobre uma das áreas mais importantes da administração pública.

A avaliação cotidiana da Saúde acontece quando o cidadão realmente precisa do sistema. Para uma família com uma criança doente no colo, pouco importa o certificado recebido dois dias antes. O que importa é saber se haverá profissional, estrutura e atendimento quando ela chegar à unidade.

No sábado, a Saúde apareceu no palco. Nesta segunda, voltou para a sala de espera. Os dois retratos existem — e a realidade também merece destaque.

Fontes: relato e imagem encaminhados ao vereador Rafael Foss; divulgação do Destaques do Ano 2026; informações públicas da Câmara Municipal e do Município de Pato Branco.

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