Se teve uma coisa que o pato-branquense dificilmente conseguiu fazer em 2026 foi esquecer do prefeito Géri Dutra. Depois de meses de cobranças, controvérsias administrativas, problemas em serviços públicos e uma sequência de acontecimentos que colocaram a Prefeitura no centro do debate local, veio o reconhecimento: Géri terminou a noite de sábado (29) entre os premiados do Destaques do Ano no campo político.
E ele não foi o único integrante da administração municipal a sair com reconhecimento. A secretária municipal de Saúde, Márcia Fernandes de Carvalho, também apareceu entre os destaques da área da Saúde. Em uma cidade onde pacientes continuam aguardando consultas, exames e procedimentos, a combinação dos dois nomes entre os homenageados produziu, nos bastidores da política, uma reação quase inevitável: ironia.
NOS BASTIDORES DA POLÍTICA
Se a pesquisa era sobre lembrança, 2026 ajudou bastante
A premiação é promovida pelo Jornal de Pato Branco e Jornal de Beltrão e chegou a Pato Branco em 2026. Segundo a própria organização, a escolha dos destaques partiu de uma pesquisa realizada entre maio e junho, por meio de formulários digitais enviados a moradores do Centro, bairros e interior do município.
A proposta é identificar empresas, profissionais e personalidades lembradas pela população em diferentes segmentos. E é justamente a palavra “lembrado” que torna o resultado no campo político tão curioso.
Géri esteve durante boa parte do ano no centro do debate político municipal. Seu nome apareceu em anúncios da administração, inaugurações e projetos, mas também em cobranças da Câmara, críticas nas redes sociais, questionamentos sobre serviços, obras, contratos e decisões do Executivo.
Notoriedade, afinal, funciona para os dois lados. Um político pode ser lembrado por suas realizações, por suas controvérsias ou simplesmente porque esteve permanentemente no centro dos acontecimentos. Uma pesquisa de lembrança, por si só, não permite distinguir uma coisa da outra.
UM 2026 DIFÍCIL DE ESQUECER
E a reta final de agosto ainda reservou mais um capítulo
A ironia da premiação ficou ainda maior pela proximidade com um dos episódios políticos mais marcantes dos últimos dias. Na quinta-feira (27), apenas dois dias antes da cerimônia, o Ministério Público do Paraná, com apoio do Gaeco, deflagrou a segunda fase da Operação Homens de Bem.
Segundo o MPPR, a investigação apura supostas fraudes em licitações milionárias relacionadas à pavimentação asfáltica em Pato Branco. Foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão, e as diligências alcançaram, entre outros endereços, o presidente da Câmara Municipal e uma servidora pública comissionada da Prefeitura.
Documentos e equipamentos eletrônicos foram apreendidos e serão analisados no prosseguimento das investigações. A apuração envolve suspeitas que ainda serão submetidas à análise das autoridades competentes e, posteriormente, quando for o caso, do Judiciário.
A operação não significa acusação contra o prefeito Géri Dutra, e não há base para atribuir a ele responsabilidade pessoal pelos fatos apenas em razão das diligências envolvendo a estrutura municipal. Ainda assim, sob o ponto de vista político, a chegada novamente de uma operação ligada a contratos públicos ampliou o desgaste e colocou a administração outra vez no centro das conversas da cidade.
Até decisão definitiva, todas as pessoas eventualmente investigadas ou citadas devem ser consideradas presumidamente inocentes, com direito à ampla defesa e ao contraditório.
E A SAÚDE TAMBÉM LEVOU TROFÉU
Para quem está esperando consulta ou exame, a secretária provavelmente também não será esquecida
Se o reconhecimento de Géri já renderia comentários, a presença da secretária municipal de Saúde, Márcia Fernandes de Carvalho, entre os destaques tornou a fotografia da noite ainda mais curiosa.
Principalmente para uma parcela da população que conhece a Saúde municipal não pelos eventos, anúncios ou fotografias institucionais, mas pela experiência muito mais simples — e angustiante — de esperar.
Esperar uma consulta. Esperar um especialista. Esperar um exame. Esperar um procedimento. Esperar o telefone tocar avisando que finalmente chegou a vez.
Para essas pessoas, talvez a secretária realmente também seja difícil de esquecer.
E a discussão sobre as filas não surgiu agora por causa da premiação. Em agosto, a Câmara Municipal aprovou requerimento cobrando do Executivo informações justamente sobre o tempo médio de espera no SUS de Pato Branco para consultas e exames depois do agendamento.
O requerimento apresentado pelos vereadores Rafael Foss e Rodrigo José Correia buscou saber quanto tempo, em média, o cidadão permanece aguardando atendimento. A cobrança parlamentar evidencia uma questão elementar: para avaliar efetivamente o desempenho da rede pública, é necessário conhecer de forma transparente quanto tempo o paciente espera.
A própria administração municipal também já reconheceu os impactos das filas. Em fevereiro, ao divulgar dados sobre o absenteísmo, a Secretaria de Saúde informou que as faltas de pacientes em consultas, exames e procedimentos provocam desperdício de vagas, aumentam as filas de espera e atrasam o tratamento de outros usuários.
Segundo os números divulgados pelo Município, a taxa geral de faltas passou de 17,64% em janeiro de 2025 para 21,85% em janeiro de 2026.
É uma explicação importante para parte do problema e também revela uma responsabilidade que precisa ser compartilhada com os usuários que deixam de comparecer sem comunicar previamente. Mas o dado não apaga a realidade de quem comparece, acompanha a regulação e continua esperando.
MILHARES JÁ APARECIAM NAS FILAS
Documentos anteriores mostram o tamanho do desafio que chegou a 2026
A dimensão dessa demanda já havia aparecido de maneira concreta em documentação oficial. Dados de setembro de 2025 registravam milhares de pacientes aguardando algumas especialidades no município.
Os números são de setembro de 2025 e, portanto, não representam necessariamente o tamanho atual das filas em 2026. Eles servem, porém, para dimensionar o tamanho do desafio enfrentado pela rede municipal e ajudam a explicar por que o tempo de espera continua sendo tema de cobrança política.
A administração também adotou iniciativas para ampliar atendimentos. Entre elas estiveram ações voltadas à realização de cirurgias eletivas, ferramentas digitais e atendimentos extraordinários, como a estrutura destinada à oftalmologia para pacientes previamente cadastrados na Central de Regulação.
Essas medidas precisam ser consideradas em qualquer avaliação séria da pasta. Mas também não transformam automaticamente um reconhecimento privado em atestado sobre a qualidade de toda a Saúde municipal.
Enquanto a secretária recebia reconhecimento como destaque da Saúde, há moradores que continuam aguardando justamente aquilo que mais importa quando precisam do poder público: consulta, exame, especialista ou procedimento. Para eles, a avaliação da Saúde não acontece em uma cerimônia. Acontece entre o encaminhamento e o dia em que o atendimento finalmente chega.
O PRÊMIO E O QUE ELE REALMENTE DIZ
Lembrança não é sinônimo de aprovação
É importante fazer uma distinção para não atribuir à premiação algo que ela própria não pretende medir. O reconhecimento não equivale a uma pesquisa de aprovação da administração Géri Dutra nem a uma avaliação técnica da Secretaria Municipal de Saúde.
Também não há razão para estender a ironia aos demais empresários, profissionais e personalidades homenageados. O ponto político está especificamente no contraste entre dois integrantes de uma administração submetida a fortes cobranças públicas em 2026 e o reconhecimento recebido justamente nas áreas em que atuam.
No caso de Géri, ser lembrado é absolutamente compreensível. O prefeito ocupou o centro do palco político durante o ano.
No caso da Saúde, a memória também tem várias formas. Há quem lembre das ações realizadas pela pasta. E há quem certamente lembre do tempo passado aguardando uma resposta da rede pública.
A FOTO E O FILME
O troféu registra uma noite; a população acompanha o ano inteiro
Na cerimônia de sábado houve reconhecimento, fotografias, jantar e comemoração. Para quem recebeu o prêmio, naturalmente, uma noite para guardar na memória.
Mas política tem uma característica inconveniente: a fotografia registra apenas alguns segundos. A população assiste ao filme inteiro.
E foi justamente por ter assistido a tantos capítulos que Pato Branco chegou ao final de agosto com dois integrantes importantes da administração entre os “lembrados” da noite.
Talvez a grande ironia esteja exatamente aí: a premiação respondeu quem foi lembrado. O que ela não consegue responder é por que cada pato-branquense lembra de determinado nome. Entre lembrança, aprovação e avaliação existe uma distância enorme — e é nessa distância que a política acontece.
Para Géri, o desafio político é fazer com que a enorme exposição de 2026 se converta em saldo positivo para sua administração e para o grupo que o acompanha.
Para Márcia, o desafio é muito mais concreto: fazer com que quem hoje se lembra da Secretaria porque está esperando passe a se lembrar dela porque finalmente foi atendido.
Porque troféu é entregue em uma noite. Consulta, exame e atendimento são cobrados todos os dias.
Fontes: Jornal de Beltrão/Jornal de Pato Branco; Município de Pato Branco; Câmara Municipal de Pato Branco; documentos públicos municipais; Ministério Público do Paraná.
Por Gustavo - Portal Verdades / Fonte: Jornal de Beltrão/Jornal de Pato Branco, Município de Pato Branco, Câmara Municipal de Pato Branco e MPPR
