Os buracos que esperem. A Prefeitura de Pato Branco suspendeu temporariamente a operação tapa-buracos com massa asfáltica em toda a cidade e também nas estradas rurais depois de ficar sem o material utilizado pelas equipes. Segundo a própria administração, o fornecedor que vinha atendendo o Município foi alcançado por uma medida que impede relações comerciais com a Prefeitura. Sem uma alternativa pronta para assumir o fornecimento, o serviço parou.
A decisão judicial que atingiu o fornecedor evidentemente não estava sob controle do prefeito Géri Dutra. O problema político e administrativo está em outro lugar: por que a saída de um fornecedor foi suficiente para interromper um serviço básico de manutenção viária em todo o município?
Documentos oficiais mostram que a necessidade de massa asfáltica não surgiu agora e muito menos de surpresa. Ela estava expressamente prevista no planejamento de compras da própria gestão, com milhões de reais estimados para assegurar o fornecimento do material.
R$ 4 milhões para asfalto estavam no planejamento da própria gestão
No Plano de Contratações Anual de 2026, documento oficial da Prefeitura, o item 188 prevê a implantação de Registro de Preços para aquisição de massa asfáltica tipo CBUQ, emulsão asfáltica, materiais para pavimentação em concreto e redutores físicos de velocidade.
A justificativa registrada é direta: atender à demanda da Secretaria Municipal de Engenharia e Obras. O valor estimado para a contratação é de R$ 4 milhões e o próprio documento indica abril de 2026 como período previsto para a aquisição, conforme demanda.
A versão do PCA consultada pelo Portal Verdades foi assinada digitalmente pelo prefeito Géri Natalino Dutra em 28 de abril de 2026. Ou seja: no próprio mês indicado para a contratação, a necessidade de garantir material asfáltico já estava formalmente registrada no planejamento da administração.
Quase quatro meses depois, a realidade é que a Prefeitura informa estar buscando um novo fornecedor enquanto o tapa-buracos permanece suspenso.
A mesma necessidade já aparecia no planejamento de 2025
Há outro dado que torna mais difícil tratar a falta de massa asfáltica como uma situação administrativa imprevisível: o mesmo tipo de aquisição já aparecia no Plano de Contratações Anual de 2025.
Naquele documento, o item 164 previa novamente a aquisição de massa asfáltica tipo CBUQ, emulsão asfáltica e materiais para pavimentação em concreto. O orçamento estimado também era de R$ 4 milhões e o mês indicado também era abril.
Portanto, independentemente da ocorrência posterior envolvendo o fornecedor, os documentos da Prefeitura demonstram que manter disponibilidade de CBUQ é uma necessidade recorrente e conhecida da administração municipal.
Uma empresa sai de cena e o serviço inteiro para
É neste ponto que um problema provocado por uma circunstância externa passa a expor uma fragilidade interna de planejamento.
Não seria razoável exigir que a Prefeitura previsse especificamente que determinado fornecedor seria alcançado por uma medida judicial. Mas é justamente função do planejamento administrativo reduzir o risco de que um serviço público fique totalmente dependente de uma única situação contratual, especialmente quando se trata de um insumo utilizado continuamente na conservação das ruas.
A própria resposta da administração evidencia que a alternativa não estava pronta. Em vez de simplesmente acionar outro fornecimento e manter as equipes trabalhando, a Prefeitura informou que agora busca “viabilizar um novo fornecedor”. Até lá, os reparos ficam parados.
Não foi divulgado prazo para que a população volte a ter o serviço normalizado.
Pregão que inclui CBUQ ainda nem chegou à sessão pública
Enquanto o serviço permanece suspenso, outro processo de compras da própria Prefeitura ajuda a dimensionar o problema de calendário.
O Pregão Eletrônico nº 42/2026 prevê um amplo Registro de Preços para materiais destinados à manutenção predial e à infraestrutura urbana. Entre os produtos contemplados no lote de pavimentação estão emulsões asfálticas e o próprio Concreto Betuminoso Usinado a Quente, o CBUQ.
O edital tem valor global estimado em aproximadamente R$ 14,4 milhões, considerando todas as categorias de materiais, e a sessão pública está marcada para 14 de agosto de 2026.
Isso significa que, no momento em que o tapa-buracos foi suspenso, esse novo Registro de Preços que também contempla massa asfáltica ainda estava em fase anterior à disputa.
Não há elementos suficientes, nos documentos analisados, para afirmar que o Pregão nº 42/2026 corresponda exatamente à contratação de R$ 4 milhões prevista no item 188 do PCA. Mas há um fato objetivo: o processo atual inclui CBUQ e emulsões e ainda não estava concluído quando a Prefeitura ficou sem material.
O teste do planejamento acontece quando alguma coisa dá errado
Ter uma compra registrada em um Plano de Contratações é importante. Mas planejamento público não termina na inclusão de uma linha em uma planilha. Ele precisa chegar à execução e, principalmente, garantir continuidade aos serviços essenciais quando surge um imprevisto.
É justamente aí que a situação atual atinge politicamente a gestão de Géri Dutra.
A Prefeitura sabia que precisava de massa asfáltica. Sabia que essa demanda era recorrente. Estimou R$ 4 milhões para a aquisição em 2025. Voltou a prever R$ 4 milhões em 2026. Indicou abril como período para a contratação. Ainda assim, em agosto, a impossibilidade de continuar comprando do fornecedor que vinha atendendo o Município foi suficiente para interromper o serviço nas áreas urbana e rural.
O fornecedor ter sido atingido por uma medida não é responsabilidade do prefeito. A ausência de uma alternativa capaz de impedir que toda a operação parasse, porém, é uma questão de gestão que a Prefeitura precisa explicar.
Enquanto a Prefeitura procura uma saída, os buracos continuam nas ruas
Para o morador, pouco importa qual etapa administrativa falhou entre o planejamento, a contratação, o fornecimento e a contingência. O resultado aparece no asfalto.
Buracos não deixam de crescer porque um fornecedor ficou impedido de vender para a Prefeitura. Ruas continuam recebendo veículos, chuva e desgaste enquanto o Município procura uma solução contratual.
E é esse contraste que transforma o caso em tema para os Bastidores da Política: no papel, havia planejamento, previsão de compra e milhões de reais estimados. Na rua, quando o fornecedor saiu de cena, faltou o plano B.
Até que a administração encontre outro caminho e restabeleça o fornecimento, resta ao motorista redobrar a atenção.
E aos buracos? Esses, pelo visto, terão que esperar.
Fontes: Plano de Contratações Anual de 2025; Plano de Contratações Anual de 2026; Pregão Eletrônico nº 42/2026; informações divulgadas pela Prefeitura de Pato Branco sobre a suspensão do tapa-buracos.
Por Gustavo - Portal Verdades / Fonte: Prefeitura de Pato Branco e documentos oficiais do Município
