Na segunda-feira, 3 de fevereiro, um morador de Pato Branco ligou ao vivo para a Rádio Itapuã e fez um desabafo que rapidamente chamou atenção pela gravidade do conteúdo e pelo caráter humano do relato. Pai de uma jovem tetraplégica de 23 anos, ele descreveu situações recorrentes em que foi multado por agentes de trânsito mesmo estando com o veículo devidamente identificado para vagas especiais e mesmo estando em plena operação de desembarque da filha e da cadeira de rodas.
Segundo o relato feito no dia 3, o veículo possuía todas as identificações exigidas: cartão de estacionamento especial, plaqueta no para-brisa e identificação visível. O episódio mais recente, conforme narrado pelo ouvinte, ocorreu em frente à Prefeitura de Pato Branco. A vaga destinada a cadeirantes já estava ocupada e, diante da necessidade de proximidade para realizar a retirada da filha e da cadeira, ele estacionou na vaga destinada a idoso, e não na de cadeirante. O ponto central do relato não é a escolha da vaga, mas o contexto: a dificuldade física da transferência, o tempo necessário para acomodar a filha, a ausência de alternativas e a urgência da situação.
A abordagem, a promessa informal e a multa mantida
Durante esse procedimento, segundo o morador, uma agente de trânsito se aproximou e afirmou que ele estava estacionado de forma irregular. Ele relata que tentou explicar a situação, afirmando que sairia em seguida e que precisava daquele local por ser o mais próximo. Ainda assim, ouviu que a multa seria aplicada e que depois “era só ir ao Depatran” porque “não precisaria pagar”.
Na prática, conforme o próprio cidadão afirmou no ar, isso não aconteceu. Ele foi até o órgão, recebeu a penalidade, teve que pagar uma multa de valor superior a duzentos reais e ainda recebeu quatro pontos na carteira de habilitação. O ouvinte deixou claro, ainda no dia 3, que não generaliza a crítica. Reconheceu que há agentes de trânsito que demonstram sensibilidade, diálogo e compreensão em situações envolvendo pessoas com deficiência. No entanto, apontou que parte do efetivo age com frieza, autoritarismo e ausência total de empatia, tratando todos como infratores automáticos, independentemente da realidade enfrentada naquele momento.
Outros episódios semelhantes e a sensação de injustiça recorrente
Durante a mesma ligação, ele relatou que não se tratava de um episódio isolado. Segundo sua fala, em outra ocasião, em frente à Igreja Matriz, estacionou em vaga de cadeirante com toda a documentação regular e foi multado mesmo assim. Ele afirma que a agente aguardou ele se afastar do veículo para aplicar a multa e que, ao retornar para questionar, ouviu que “não estava com o cadeirante”, apesar da filha estar no banco reclinado, condição necessária devido à tetraplegia.
Mais uma vez, segundo ele, recorreu administrativamente e perdeu, tendo que arcar com a penalidade. A repetição das situações reforçou o sentimento de frustração e a percepção de que, em determinados casos, o protocolo se sobrepõe completamente à realidade humana.
A comparação com Francisco Beltrão e o debate sobre empatia
Um trecho que reforçou a crítica feita no dia 3 foi a comparação com Francisco Beltrão. O morador relatou que, naquela cidade, foi abordado de forma humana e orientativa, com diálogo, compreensão e bom senso por parte dos agentes. Para ele, a diferença não está na lei, mas na forma de aplicá-la. A palavra usada repetidas vezes no desabafo foi “empatia”, ou melhor, a falta dela.
Ao final da ligação do dia 3, o comunicador Carrapicho pediu autorização para reprisar o áudio, encaminhá-lo a vereadores e divulgar o conteúdo nas redes sociais. O ouvinte autorizou expressamente, afirmou que seu telefone estava à disposição e se colocou aberto ao diálogo com qualquer autoridade que quisesse ouvir seu relato.
Reação do Depatran e tentativa de desacreditar o relato
Após a fala do ouvinte no dia 3 de fevereiro, o caso ganhou outro contorno hoje, 4 de fevereiro. Segundo relato feito pelo próprio Carrapicho durante o programa, houve reação interna no Depatran após a veiculação do áudio.
De acordo com o comunicador, o diretor do órgão, Romulo Faggion, teria questionado a veracidade do relato levado ao ar, insinuando que o ouvinte não existia ou que suas falas não refletiam a realidade dos fatos. Ainda segundo Carrapicho, o diretor teria ameaçado processá-lo por ter reproduzido o áudio do cidadão durante o programa.
Diante dessa reação, Carrapicho passou praticamente toda a manhã tentando reencontrar o contato do ouvinte, já que, no momento da ligação original, o cidadão não havia deixado seu número de telefone registrado corretamente.
Somente no final da manhã o morador voltou a entrar em contato com a rádio, confirmou sua identidade e reafirmou integralmente as falas feitas no dia anterior, dando origem à segunda ligação, na qual reiterou todos os pontos do relato inicial.
Dia 4 de fevereiro: o ouvinte retorna e confirma tudo
É nesse contexto que ocorre a segunda ligação, hoje, dia 4 de fevereiro. Após ser avisado da repercussão e da tentativa de desacreditar o relato, o morador voltou a entrar em contato com a rádio. Dessa vez, ele se identificou como Perin, confirmou ser morador de Pato Branco há cerca de 45 anos e reafirmou, ponto a ponto, tudo o que havia dito no dia anterior.
Na mesma ligação, Adilson reforçou que foi multado duas vezes em situações semelhantes no ano passado, que recorreu administrativamente nas duas ocasiões e que, mesmo assim, teve que pagar as multas. Repetiu que não generaliza a crítica, mas que parte dos agentes atua de forma autoritária, sem diálogo e sem qualquer tentativa de orientação.
“Não é política, é postura”: a fala que desmonta narrativas
Adilson também fez questão de afastar qualquer conotação político-partidária do caso. Afirmou não ter partido político, disse que votou e fez campanha para o prefeito Géri Dutra e deixou claro que seu problema não é com o prefeito, mas com a postura adotada por parte dos agentes do Depatran.
Ele se colocou à disposição para conversar diretamente com o diretor do órgão, para ir pessoalmente ao Depatran e até para uma eventual acareação, demonstrando que não teme o confronto de versões e que sustenta integralmente seu relato.
Durante a ligação do dia 4, o próprio Carrapicho afirmou que preservaria dados sensíveis, como endereço, por questão de segurança, mas confirmou o nome do cidadão, deixando claro que o ouvinte existe, que o relato é real e que não se tratava de uma invenção ou de uma denúncia anônima sem lastro.
O que o caso revela sobre fiscalização e humanidade
O que esse caso revela vai além de uma multa específica. Revela um problema estrutural na forma como situações sensíveis são tratadas. O cidadão não questiona a existência da lei nem defende a ausência de fiscalização. O que ele questiona é a falta de avaliação de contexto, a aplicação automática da penalidade mesmo em situações de evidente necessidade e a criação de uma falsa expectativa quando o próprio agente sugere que a multa “não precisará ser paga”, empurrando o cidadão para um recurso que, segundo o relato, nunca prospera.
Mais grave ainda é a reação institucional diante da crítica. Quando um diretor de órgão público reage a um relato autorizado de um morador com ameaça de processo contra um comunicador, o foco deixa de ser a multa e passa a ser a relação entre poder público e sociedade. Em um ambiente democrático, a crítica é legítima, a reclamação é um direito e o papel da administração é esclarecer, corrigir e orientar, não intimidar.
Esse episódio, porém, não surge de forma isolada. O diretor do Depatran, Romulo Faggion, já moveu ação judicial contra o Portal Verdades, em um contexto igualmente relacionado à divulgação de críticas e questionamentos de interesse público. O histórico reforça a percepção de que, diante de apontamentos incômodos, a reação adotada não tem sido o diálogo institucional ou a apresentação de esclarecimentos técnicos, mas sim o enfrentamento jurídico contra quem critica ou divulga relatos da população.
O problema desse tipo de postura não está no direito de recorrer à Justiça, que é legítimo para qualquer cidadão ou agente público, mas no uso recorrente do instrumento judicial como resposta a críticas administrativas e jornalísticas. Quando isso se repete, cria-se um ambiente de intimidação indireta, que tende a desestimular o debate público, o exercício da liberdade de imprensa e o direito do cidadão de relatar situações vividas no cotidiano da cidade.
Em vez de responder com processos, espera-se de um gestor público maturidade institucional, transparência e disposição para prestar contas. Questionamentos não são ataques pessoais, e relatos de moradores não são ofensas. São, antes de tudo, sinais de que algo precisa ser revisto. Silenciar críticas não resolve problemas, apenas os empurra para debaixo do tapete.
Perguntas que seguem sem resposta
A pergunta que fica para a população é objetiva: qual é a orientação oficial do Depatran para situações de desembarque de pessoas com deficiência quando não há vaga disponível? Existe protocolo de bom senso e empatia ou o procedimento é apenas multar e mandar recorrer? Por que um relato humano, confirmado e identificado, gerou reação tão dura em vez de diálogo?
Acompanhamento e espaço aberto
O Portal Verdades seguirá acompanhando o caso e mantém espaço aberto para manifestação formal do Depatran e de sua direção, para que expliquem, de forma clara e pública, qual é a orientação adotada e por que a crítica foi tratada como ameaça, e não como oportunidade de correção.
Por Gustavo – Portal Verdades.
Áudios abaixo:
Atualização 05/02/2026:
Nota Explicativa
Após a publicação desta matéria, o comunicador Carrapicho, no programa exibido em 05 de fevereiro, fez um esclarecimento a respeito da repercussão do caso. Segundo ele, a interpretação de que o diretor do Depatran, Romulo Faggion, teria afirmado de forma direta que processaria o comunicador não foi, segundo suas próprias palavras, exatamente nesses termos.
Carrapicho explicou que o contexto da conversa foi no sentido de que poderia haver responsabilização judicial caso o áudio veiculado não tivesse origem comprovada ou caso o autor do relato não se apresentasse para confirmar sua identidade, o que posteriormente de fato ocorreu, com a reapresentação do ouvinte, confirmação do nome e reafirmação integral das falas.
Cabe esclarecer que, antes da publicação da matéria, o Portal Verdades entrou em contato diretamente com o comunicador Carrapicho, encaminhando o trecho do texto que mencionava a possibilidade de processo, tendo recebido confirmação expressa de que o entendimento apresentado estava de acordo com o que havia sido relatado no programa naquele momento. O mesmo trecho também foi submetido à conferência de profissional da equipe técnica da emissora (sonoplastia), que confirmou a interpretação.
Além disso, o Portal Verdades possui arquivadas as gravações integrais dos programas, bem como registros das conversas e confirmações prévias, documentação que permanece preservada exclusivamente para fins de comprovação factual, caso venha a ser necessária.
Diante disso, esta nota tem caráter estritamente esclarecedor, com o objetivo de registrar o contexto completo dos fatos, evitar interpretações equivocadas e reforçar que o Portal Verdades atua com responsabilidade editorial, conferência prévia das informações e respeito ao direito de resposta e de esclarecimento.
O Portal reitera que permanece aberto a manifestações formais de todas as partes envolvidas e que seu compromisso é com a informação correta, contextualizada e de interesse público.
Abaixo prints da confirmação com sonoplasta da rádio e com o próprio comunicador:

