A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou uma forte reação nos mercados financeiros nesta segunda-feira (26). Após uma madrugada de desvalorizações expressivas em ativos brasileiros negociados no exterior, o dólar abriu em alta de 8,71% no Brasil, cotado a R$ 5,424 às 9h10. No Japão, um fundo vinculado ao desempenho das ações brasileiras chegou a despencar 15%, enquanto contratos futuros do real registraram perdas próximas de 10% durante o pregão asiático.
Os movimentos foram registrados após a vitória de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno presidencial de domingo (25). Segundo informações da agência Reuters e da Folha de S.Paulo, o resultado contrariou as expectativas de parte dos investidores, que haviam apostado em uma mudança de governo e passaram a rever suas posições diante da continuidade da atual administração federal.
Reação começou no exterior antes da abertura da Bolsa brasileira
Os primeiros sinais da reação financeira apareceram ainda durante a noite de domingo no Brasil, quando os mercados asiáticos iniciaram suas operações de segunda-feira.
Na Bolsa de Tóquio, o Nomura NF Ibovespa Link ETF, fundo de investimento que acompanha o desempenho de ações brasileiras, apresentou forte desvalorização. Nas primeiras negociações, o recuo chegou a 12,75%, segundo a Reuters, e posteriormente alcançou aproximadamente 15%.
No mercado futuro de Chicago, contratos ligados ao real brasileiro com vencimento em novembro recuaram cerca de 10%, movimento equivalente a uma forte valorização do dólar em relação à moeda nacional.
Nos Estados Unidos, o iShares MSCI Brazil ETF (EWZ), que reúne ações de empresas brasileiras, também registrou queda superior a 26% nas negociações de pré-abertura, conforme dados divulgados pela Reuters.
Esses indicadores funcionaram como sinais antecipados da reação dos investidores, mas não representam, necessariamente, as oscilações definitivas da Bolsa brasileira ou do câmbio comercial.
Dólar dispara e juros futuros também sobem
Com o início das operações no Brasil, a pressão se confirmou no mercado de câmbio. Às 9h10 desta segunda-feira, o dólar comercial registrava valorização de 8,71%, chegando a R$ 5,424, segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo.
O movimento também atingiu o mercado de juros futuros, considerado um importante indicador das expectativas sobre a economia brasileira.
O contrato de juros com vencimento em janeiro de 2031 apresentou elevação de 1,82 ponto percentual, alcançando aproximadamente 14,46% ao ano. A alta indica que investidores passaram a exigir maior remuneração para assumir riscos relacionados ao cenário econômico futuro.
As oscilações ocorreram nas primeiras operações do dia e podem sofrer alterações ao longo do pregão, conforme o mercado absorva novas informações e anúncios do governo.
Investidores haviam apostado em uma mudança na política econômica
A forte reação tem relação direta com o comportamento do mercado nas semanas anteriores ao segundo turno. Depois que Flávio Bolsonaro terminou a primeira votação presidencial à frente de Lula, parte dos investidores passou a considerar a possibilidade de uma mudança na condução econômica do país.
A expectativa de uma política de maior contenção de despesas públicas, reformas econômicas e medidas favoráveis ao setor privado contribuiu para a valorização dos ativos nacionais.
De acordo com a Reuters, na sexta-feira (23), as ações brasileiras acumulavam ganhos próximos de 7% em comparação com os níveis anteriores ao primeiro turno. No mesmo período, o real havia se valorizado quase 5% em relação ao dólar.
A vitória de Lula alterou essas expectativas e levou investidores a desfazer operações montadas anteriormente, pressionando o câmbio, os fundos de ações e os contratos de juros.
O resultado da eleição não provoca, por si só, uma mudança imediata nos fundamentos econômicos do país. Entretanto, a revisão das expectativas pode gerar movimentos intensos nos preços dos ativos, principalmente quando muitos investidores estavam posicionados para um cenário diferente.
Dívida brasileira e controle de gastos entram no centro das preocupações
A principal preocupação apontada por analistas internacionais está relacionada à capacidade do próximo governo de controlar a expansão das despesas públicas e estabilizar a trajetória da dívida brasileira.
Segundo a Reuters, a dívida pública do país supera 82% do Produto Interno Bruto (PIB), cenário que mantém o equilíbrio fiscal entre os principais desafios econômicos para o novo mandato.
O governo pretende preservar programas sociais e investimentos públicos, ao mesmo tempo em que busca melhorar os indicadores fiscais. Para investidores, a questão central é se as medidas adotadas serão suficientes para reduzir o risco percebido e permitir uma trajetória sustentável de queda dos juros.
Caso os agentes financeiros considerem insuficientes os compromissos com o controle das contas públicas, poderão exigir taxas de remuneração maiores para financiar a dívida do governo, elevando os custos de crédito.
O que a alta do dólar pode representar para empresas e consumidores?
Embora os movimentos financeiros sejam registrados inicialmente entre bancos, fundos e grandes investidores, uma desvalorização persistente do real pode provocar efeitos sobre a economia cotidiana.
O dólar mais caro tende a elevar os custos de produtos importados, equipamentos, medicamentos e componentes utilizados pela indústria. Empresas que dependem de insumos estrangeiros também podem enfrentar dificuldades para manter seus preços.
No agronegócio, os impactos são diferentes conforme a atividade. Exportadores podem se beneficiar de receitas em dólares, enquanto produtores que utilizam fertilizantes, defensivos e equipamentos importados ficam expostos ao aumento de custos.
Para o Paraná, estado com forte participação da agroindústria, das cooperativas e das exportações, a evolução do câmbio tem importância especial. No entanto, os efeitos concretos dependerão da duração das oscilações e das condições de cada setor.
A elevação dos juros futuros também pode afetar as condições de financiamento, especialmente se o movimento persistir e influenciar as taxas cobradas em operações de crédito.
A queda de 15% aconteceu em um fundo de ações brasileiras negociado no Japão, não diretamente no Ibovespa. Já a desvalorização de 10% do real refere-se a contratos futuros no exterior. A alta de 8,71% do dólar, por sua vez, foi registrada no mercado brasileiro às 9h10 de segunda-feira (26). São indicadores diferentes e não devem ser confundidos.
Mercado acompanha decisões de Lula para o novo mandato
Depois da reação inicial, a atenção dos investidores estará concentrada nos anúncios econômicos do presidente reeleito e nas medidas que serão adotadas para o mandato que começa em janeiro de 2027.
Entre os pontos considerados decisivos estão a escolha do futuro ministro da Fazenda, as propostas de controle das despesas públicas, a trajetória da dívida e a relação do governo com o Congresso Nacional.
A magnitude das oscilações registradas nesta segunda-feira demonstra a sensibilidade dos mercados às expectativas políticas e fiscais. Ainda assim, não é possível afirmar que as desvalorizações iniciais permanecerão no mesmo patamar ou determinar antecipadamente seus efeitos sobre a inflação, o emprego e o crescimento econômico.
A evolução das cotações ao longo dos próximos pregões e os compromissos apresentados pelo governo serão fundamentais para avaliar se a reação representa um movimento temporário de ajuste ou uma mudança mais duradoura nas expectativas dos investidores.
Dados de 26 de outubro de 2026. Cotações nacionais referentes às 9h10. Informações internacionais correspondem às negociações anteriores à abertura brasileira. Valores sujeitos a alterações durante os pregões.
Por Gustavo - Portal Verdades / Fonte: Reuters, Folha de S.Paulo, Bloomberg Línea e InfoMoney
