Prefeito no palanque. Secretários. Comissionados. Articulação municipal e estadual. Gente experiente nos bastidores e um bom "conselheiro" por perto. Clodomir Ascari não chegou sozinho à eleição de 2026 em Pato Branco.
Havia estrutura. Havia influência. Havia gente acostumada aos corredores do poder e ao jogo político.
Mas existe um momento em que tudo isso fica do lado de fora: quando a porta da cabine fecha.
Quando as urnas foram abertas em Pato Branco, Clodomir tinha 3.242 votos e a quarta colocação entre os candidatos a deputado federal mais votados no município.
O número, sozinho, não explica uma eleição. Mas oferece uma reflexão que os bastidores da política local não deveriam ignorar: até onde vai a força de uma grande estrutura quando o eleitor decide não acompanhar automaticamente quem está no poder?
Pato Branco não tem dono
Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes deixadas pelas urnas.
Pato Branco não pertence a um grupo político. Não pertence a uma liderança. Não pertence a quem ocupa temporariamente um gabinete, controla espaços de poder ou consegue reunir mais gente em torno de uma fotografia.
Não basta escolher um nome, apresentar esse nome como o candidato do grupo e imaginar que o eleitor simplesmente acompanhará uma decisão tomada nos bastidores.
Clodomir teve ao seu lado o prefeito Géri Dutra, que participou publicamente da campanha, esteve no lançamento da candidatura e discursou em apoio ao candidato. Também fizeram parte daquele ambiente político integrantes do primeiro escalão, lideranças e ocupantes de cargos comissionados.
O próprio Portal Verdades já havia levantado essa questão durante a campanha. Em agosto, quando Géri, secretários e comissionados apareciam concentrando forças em torno de Ascari, a pergunta era justamente se a proximidade com a administração seria um trunfo ou se poderia se transformar em peso eleitoral.
Depois, no lançamento da candidatura, Géri assumiu publicamente o apoio e relatos apontaram presença expressiva de cargos comissionados ligados ao Município e ao Estado.
Naquele momento, a pergunta ficou aberta.
Toda aquela demonstração de força política seria convertida em votos?
Estrutura não faltou. Experiência também não
Clodomir tinha muitos dos elementos que a política tradicional costuma considerar importantes para uma candidatura local.
Havia prefeito, integrantes do primeiro escalão, ocupantes de cargos comissionados, lideranças com trânsito político, conexões estaduais e gente acostumada a construir alianças e circular pelos espaços de poder.
Conselho também não parecia faltar.
Nos bastidores havia experiência política, gente que conhece eleições, articulações, cargos e os caminhos do poder. Clodomir definitivamente não estava cercado por iniciantes.
Justamente por isso, os 3.242 votos merecem ser analisados para além do número.
Talvez uma das questões esteja em uma velha crença da política: imaginar que influência possa ser transferida como se o voto acompanhasse automaticamente o cargo, a liderança ou a estrutura.
A urna mostrou que não funciona exatamente assim.
Apoio político pode trazer força, mas também carrega o peso de quem apoia
Há outro componente impossível de ignorar em uma análise dos bastidores: quando um prefeito entra publicamente em uma campanha, ele não empresta apenas sua imagem, seu cargo e sua capacidade de articulação.
Empresta também parte da avaliação política que a população faz de sua administração.
Géri Dutra chegou ao período eleitoral depois de meses em que sua gestão esteve no centro de críticas, controvérsias administrativas, cobranças públicas e embates políticos em Pato Branco.
Isso não significa transformar os 3.242 votos de Clodomir em uma pesquisa de aprovação ou rejeição ao prefeito. Uma eleição para deputado federal não mede tecnicamente a avaliação de um governo municipal, e seria incorreto apresentar o resultado dessa forma.
Mas política não acontece no vácuo.
Uma administração bem avaliada pode emprestar prestígio a quem aparece ao seu lado. Uma gestão submetida a críticas e desgaste político também pode levar para o palanque parte desse ambiente.
Quando o chefe do Executivo decide subir ao palco, declarar seu apoio e associar seu capital político a determinado candidato, os dois passam inevitavelmente a dividir parte da mesma fotografia.
E é justamente aí que surge uma pergunta relevante também para o governo:
quanto do capital político da atual administração consegue realmente ser transferido para alguém escolhido e apoiado pelo grupo?
Martins chegou a 41,83% da votação de Clodomir
E então aparece um número especialmente interessante nessa análise.
Policial Martins, do Podemos, recebeu 1.356 votos em Pato Branco.
É o equivalente a 41,83% de toda a votação obtida por Clodomir.
Martins não apareceu cercado por uma estrutura política municipal comparável àquela reunida em torno de Clodomir. Não teve ao seu redor a mesma combinação de prefeito, primeiro escalão, comissionados e articulação política local.
Ainda assim, para cada 100 votos conquistados por Clodomir, Martins conseguiu aproximadamente 42.
Isso não significa que as campanhas tenham ocorrido em igualdade de condições, nem permite atribuir a votação de um ou de outro a uma única causa.
Mas o comparativo dimensiona uma questão importante: existe um limite para o quanto estrutura, influência e articulação conseguem ser transformadas em voto.
Influência não é propriedade sobre o eleitor
Durante muito tempo, grupos políticos trabalharam com uma lógica conhecida: reúne-se uma estrutura, escolhe-se um candidato e tenta-se transferir para ele a força acumulada por prefeitos, secretários, lideranças, cargos e grupos de influência.
Essa estratégia pode funcionar. Apoios importam. Estrutura importa. Articulação importa.
Mas nenhuma dessas coisas transforma o eleitor em patrimônio político.
Não basta alguém decidir quem será “o candidato da cidade”. Não basta reunir lideranças. Não basta ocupar espaços de poder. Não basta imaginar que influência significa obediência eleitoral.
O eleitor pode ouvir o prefeito.
Pode conhecer o secretário.
Pode conviver com o comissionado.
Pode receber conselho de uma liderança.
Mas, quando a porta da cabine fecha, entra apenas uma pessoa.
O eleitor.
No fim, cada eleitor tem um voto
Talvez seja esse o ponto que mais merece reflexão depois da eleição.
Cargo não vota.
Secretário não vota pelos outros.
Comissionado não vota pelos outros.
Conselheiro não vota pelos outros.
Prefeito não vota pelos outros.
Cada eleitor tem um voto.
E é justamente por isso que, de tempos em tempos, as urnas produzem resultados capazes de contrariar cálculos feitos em gabinetes, reuniões, grupos políticos e conversas de bastidores.
Clodomir recebeu 3.242 votos. São 3.242 escolhas legítimas de eleitores que confiaram em sua candidatura.
Mas, diante da dimensão da estrutura política reunida ao seu redor, permanece uma pergunta que dificilmente desaparecerá dos bastidores:
quanto vale, de fato, toda essa força política quando chega a hora de transformar influência em voto?
A resposta não está mais nos discursos.
Não está nas reuniões.
Não está nos cargos.
Não está nos corredores do poder.
Está na urna.
E talvez seja justamente isso que as urnas tenham lembrado mais uma vez a quem, de tempos em tempos, confunde força política com domínio sobre o eleitorado:
Pato Branco não tem dono.
Dados eleitorais: Tribunal Superior Eleitoral. Clodomir Ascari recebeu 3.242 votos e ficou na quarta colocação para deputado federal em Pato Branco. Policial Martins recebeu 1.356 votos. A análise apresentada nesta coluna representa uma leitura política dos resultados e não substitui pesquisa específica de avaliação da administração municipal.
Por Gustavo - Portal Verdades / Fonte: TSE, registros de campanha, matérias anteriores do Portal Verdades e análise política
