Ao afirmar que Pato Branco vive um “excelente momento”, o prefeito Géri Dutra apresentou uma série de obras, convênios e processos licitatórios para demonstrar os avanços da administração. O discurso, porém, evidencia um contraste político que vem marcando a atual gestão: após criticar repetidamente governos anteriores, o prefeito agora utiliza como vitrine diversos projetos que fazem parte de uma sequência administrativa construída ao longo de diferentes mandatos.
Durante a fala, Géri destacou o novo terminal do aeroporto, o alargamento da pista, a Frei Policarpo, a duplicação da PR-493, a arquibancada do estádio, as cadeiras da arena, o Parque Linear da Zona Sul, o Complexo Esportivo do São Francisco e novos investimentos em asfalto urbano e rural. Embora a atual gestão esteja conduzindo etapas importantes desses projetos, boa parte deles não surgiu a partir de iniciativas exclusivas do atual governo municipal.
Quando a crítica ao passado encontra a continuidade administrativa
Desde o período eleitoral e ao longo dos primeiros meses de mandato, Géri Dutra adotou um discurso frequentemente crítico em relação às administrações anteriores. Em diversas oportunidades, atribuiu problemas do município a decisões tomadas no passado e afirmou que muitos projetos precisavam ser reorganizados ou retomados.
Entretanto, ao apresentar os principais exemplos de avanços da atual gestão, o prefeito recorre justamente a obras e investimentos que, em muitos casos, já possuíam histórico anterior, seja por meio de projetos técnicos, busca de recursos, convênios, aprovações ou encaminhamentos realizados em governos passados.
A situação cria um contraste político evidente. Afinal, se parte desses projetos era utilizada como exemplo para criticar gestões anteriores, agora eles aparecem como argumento para sustentar a narrativa de que a cidade vive um “excelente momento”.
Projetos de longo prazo dominam a lista apresentada
| Aeroporto Municipal | Terminal, taxiway e alargamento da pista |
| Frei Policarpo | Obra citada como licitada no dia 12 |
| Estádio e Arena | Arquibancada do estádio e cadeiras da arena |
| Asfalto urbano | Autorização de R$ 11 milhões para regiões como Zona Sul, São Cristóvão, Alvorada, Santo Antônio e São Francisco |
| Asfalto no interior | Três novos trechos anunciados para a próxima semana |
| Complexo Esportivo São Francisco | Projeto citado como já licitado |
| Parque Linear Zona Sul | Licitação mencionada como já agendada |
| PR-493 | Duplicação em fase de organização do processo licitatório |
A própria fala do prefeito demonstra que boa parte das iniciativas ainda se encontra em fases como licitação, convênio, autorização de recursos ou preparação administrativa. São etapas fundamentais para que as obras aconteçam, mas que ainda antecedem a entrega efetiva dos benefícios à população.
A máquina pública é lenta e as obras atravessam governos
A realidade da administração pública é diferente da dinâmica da iniciativa privada. Grandes obras e investimentos raramente começam e terminam dentro de um único mandato. Projetos dependem de estudos técnicos, elaboração de projetos, aprovação de órgãos competentes, captação de recursos, convênios, licitações, execução e fiscalização.
Por isso, é absolutamente normal que um prefeito assuma o cargo e encontre projetos já em andamento. Da mesma forma, também é comum que deixe obras e investimentos encaminhados para que sejam executados por administrações futuras.
O próprio Géri Dutra provavelmente viverá essa situação. Diversas obras anunciadas ou iniciadas durante seu governo poderão ultrapassar o atual mandato e serem concluídas por outro gestor no futuro. Mesmo que venha a ser reeleito, muitos projetos estruturantes possuem cronogramas que superam quatro anos de administração.
Isso não diminui o mérito de quem executa, assim como não apaga o trabalho de quem iniciou, planejou ou buscou os recursos. A administração pública funciona justamente como uma sequência de etapas que atravessa diferentes governos.
O questionamento levantado pela fala do prefeito não está na existência dessa continuidade, que é natural e esperada. O ponto central está na coerência do discurso político. Se obras herdadas serviam para justificar críticas ao passado, torna-se contraditório utilizar essas mesmas obras como principal vitrine para promover os resultados da gestão atual.
No fim das contas, as obras não pertencem a prefeitos, partidos ou grupos políticos. Elas pertencem à população. O debate, portanto, não é sobre quem deve receber todo o crédito, mas sobre a necessidade de reconhecer que grandes projetos públicos normalmente são construídos por várias mãos e atravessam diferentes administrações até se tornarem realidade.
O cidadão espera menos narrativa e mais resultados
A fala de Géri Dutra mostra que existem investimentos importantes em andamento e que Pato Branco possui projetos relevantes para os próximos anos. O desafio da atual gestão, entretanto, será transformar licitações, convênios e anúncios em obras concluídas e serviços efetivamente entregues à população.
Mais do que a disputa política sobre quem iniciou ou quem concluiu determinado projeto, o que a população espera é que as obras avancem e produzam resultados concretos. Porém, quando um governo utiliza a continuidade administrativa para promover sua gestão após ter criticado essa mesma herança em outros momentos, abre espaço para questionamentos legítimos sobre a coerência do discurso adotado.
Por Gustavo - Portal Verdades / Fonte: Declaração pública do prefeito Géri Dutra
