Projetos estruturados fora da Prefeitura garantiram recursos estratégicos
A partir de 2025, a Associação Comercial e Empresarial de Pato Branco (ACEPB) passou a ocupar um espaço que, até então, era tradicionalmente atribuído à máquina pública: a formulação técnica de projetos estruturantes. Mais do que representar o setor produtivo, a entidade assumiu protagonismo direto no planejamento de obras estratégicas, financiando estudos e entregando projetos executivos prontos ao Poder Executivo.
O modelo foi estruturado de forma objetiva. Empresários locais realizaram aportes financeiros à entidade, que contratou equipes técnicas especializadas para desenvolver projetos completos, posteriormente doados ao município. O investimento declarado gira em torno de R$ 1,6 milhão, dentro do pacote denominado “Acelera Pato Branco”, com foco principal em mobilidade urbana e infraestrutura viária.
Uma engrenagem diferente: quem projeta e quem executa
Consolidou-se uma divisão de funções inédita no contexto local: a ACEPB projeta; o município apresenta, capta recursos e executa.
Em gestões anteriores, Roberto Viganó, Augustinho Zucchi, Robson Cantu e demais administrações, a responsabilidade pela elaboração técnica dos projetos era integralmente da Prefeitura. Isso, não raras vezes, resultava em atrasos, limitações técnicas e perda de prazos para obtenção de recursos estaduais e federais.
Com o novo modelo, a gestão Géri Dutra passou a receber projetos praticamente prontos para protocolo. Em termos práticos, isso reduz o tempo interno de preparação e amplia a competitividade do município na disputa por investimentos públicos.
O que está no pacote Acelera Pato Branco
Entre os projetos estruturados para transformar a mobilidade urbana estão:
- BR 158 – Capeg a Posto Doval (Av. Frei Policarpo);
- BR 158 – Capeg a Transgoss (Av. Frei Policarpo);
- PR 493 – duplicação;
- Teolândia;
- São Braz;
- São Pedro de Alcântara;
- Linha Karlot;
- Comunidade de São João Batista;
- Estrada Municipal saída Azelino Dala Costa;
- Estrada Municipal Comunidade de Independência;
- Estrada Municipal Azelino Dala Costa;
- Aeroporto Taxiway (protocolado);
- Trevo Bom Retiro;
- Aeroporto Pista.
O conjunto revela foco claro em mobilidade e infraestrutura estratégica, setores que impactam diretamente crescimento urbano, logística regional e desenvolvimento econômico. Ao estruturar previamente esses projetos, a entidade criou um banco técnico pronto para ser utilizado conforme surgem oportunidades de financiamento.
Av. Frei Policarpo: o recurso só chegou porque o projeto estava pronto
O caso da Avenida Frei Policarpo é emblemático. O recurso só foi garantido porque o projeto já estava elaborado e tecnicamente apto para protocolo.
Sem esse projeto estruturado pela ACEPB, dificilmente o município teria conseguido cumprir o prazo exigido para viabilização do recurso. Não haveria obra saindo do papel naquele momento.
Esse é um ponto que precisa ser dito com clareza: o mérito técnico da estruturação não nasceu dentro da Prefeitura.
Parabeniza-se a iniciativa da entidade e dos empresários que financiaram o projeto. A cidade ganhou. Mas o fato político permanece, o recurso foi destravado porque o projeto não dependia da burocracia interna da administração.
Aeroporto: o projeto que quase fez Pato Branco perder o recurso
Outro episódio reforça essa dinâmica: o projeto do Taxiway do Aeroporto.
Segundo informações apuradas, a administração precisava apresentar o projeto dentro de prazo determinado. O secretário foi cobrado. Um empresário da cidade procurou o gabinete do prefeito alertando sobre a urgência. O prefeito teria chamado o secretário e estipulado prazo para entrega.
Segundo informações o diretor do aeroporto deslocou-se a Curitiba para reunião, aguardando o projeto. Já na estrada, entrou em contato solicitando o envio do documento. O projeto não estava pronto. A viagem foi praticamente perdida.
Diante desse cenário, empresários locais, preocupados com o desenvolvimento da cidade e usuários diretos da estrutura aeroportuária, decidiram agir. O projeto foi custeado pela iniciativa privada, com aportes de diversas empresas da cidade, valores fracionados, contribuições coletivas, viabilizados formalmente por meio da ACEPB, que recebeu os recursos, contratou o serviço técnico.
É importante destacar: entre os que ajudaram estavam empresários que, sabidamente, não apoiaram o atual prefeito Géri Dutra. Ainda assim, agiram em benefício do Município. O objetivo foi um só, evitar que Pato Branco perdesse mais um recurso estratégico.
Aqui há dois fatos objetivos e simultâneos: houve atraso administrativo e o recurso só foi garantido porque a iniciativa privada interveio.
A atitude dos empresários é digna de reconhecimento. Demonstraram compromisso com o desenvolvimento da cidade acima de qualquer alinhamento político. Mas o episódio reforça o debate central desta matéria: sem a atuação da ACEPB e da mobilização empresarial, o município teria perdido esse investimento.
E quando recursos públicos dependem de ação emergencial da iniciativa privada para não serem perdidos, a discussão deixa de ser apenas sobre boa vontade, passa a ser sobre planejamento.
Planejamento urbano: falha pontual ou problema estrutural?
Os episódios recentes levantam questionamentos mais amplos sobre a condução do planejamento urbano municipal. Projetos estratégicos exigem antecipação técnica, revisão constante de instrumentos como o Plano Diretor e dimensionamento realista das obras.
Quando se projeta, por exemplo, um terminal urbano de grande porte, com custos elevados e exigências complexas, é preciso avaliar capacidade de execução e sustentabilidade financeira. Obras superdimensionadas podem gerar entraves adicionais, atrasos e pressão orçamentária.
Se o município já enfrenta dificuldades para ajustar instrumentos básicos de planejamento urbano, como o próprio Plano Diretor, é legítimo questionar se há estrutura técnica suficiente para conduzir projetos de alta complexidade sem depender de intervenções externas.
Um modelo eficiente — e inegavelmente positivo
Do ponto de vista técnico, o modelo representa um avanço relevante. Antecipar a elaboração de projetos elimina gargalos burocráticos e aumenta a eficiência na busca por investimentos. A cidade ganha quando planejamento e execução caminham com agilidade.
Não se trata de crítica à cooperação. Ao contrário: a integração entre setor produtivo e poder público pode acelerar transformações estruturais. O desenvolvimento concreto é o principal resultado dessa engrenagem.
Mas eficiência não elimina debate.
Muleta ou parceria estratégica?
É aqui que surge a dimensão política.
Ao assumir a elaboração técnica dos principais projetos estruturantes, a ACEPB passou a ocupar um espaço que historicamente era atribuído à administração pública. Isso altera o equilíbrio institucional existente nas gestões anteriores. A provocação sobre “muleta” nasce dessa percepção: a atual gestão está fortemente amparada por uma estrutura técnica financiada externamente.
Sem esses projetos estruturados previamente, muitos anúncios talvez ainda estivessem na fase de intenção.
Isso não diminui o mérito da gestão na captação de recursos, mas exige reconhecimento claro da divisão de protagonismo. Estruturar o projeto é uma etapa; captar e executar é outra. Em diversos casos recentes, a estruturação partiu da iniciativa privada.
Limites e responsabilidades
Há também uma delimitação essencial: após a doação formal dos projetos, a ACEPB não participa de licitações, não elabora editais, não contrata empresas e não fiscaliza execução. A fase contratual e executiva é integralmente pública.
O caso do primeiro contrato da Avenida Frei Policarpo, que recebeu recomendação de anulação pelo Ministério Público, reforça essa separação. Eventuais questionamentos na contratação recaem sobre quem conduziu o procedimento administrativo — não sobre quem elaborou o projeto.
Projeto é planejamento técnico. Execução é ato administrativo.
Análise política: mudança estrutural ou coincidência administrativa?
Embora o modelo tenha sido concebido anteriormente, foi a partir de 2025 que ganhou protagonismo prático e visibilidade pública. Isso não configura irregularidade, mas torna legítima a reflexão: estamos diante de uma política permanente de cidade ou de uma convergência circunstancial entre setor produtivo e gestão atual?
Quando uma nova engrenagem institucional surge e passa a sustentar projetos estratégicos justamente em determinado ciclo administrativo, o debate sobre contexto é natural. A eficiência técnica é inegável. A questão é institucional.
Se antes o Executivo concentrava a formulação técnica, agora parte relevante dessa inteligência estratégica nasce fora da máquina pública. Isso gera agilidade, mas também redefine o centro de gravidade do planejamento.
Outro ponto relevante é a composição das contribuições privadas. Todos participam de forma equilibrada? Há transparência suficiente sobre critérios e prioridades? Não se afirma qualquer irregularidade. A ACEPB é entidade privada, com governança própria. O foco da fiscalização deve permanecer onde é público: contratos, licitações e execução.
Mas quanto maior a integração estratégica entre iniciativa privada e agenda pública, maior deve ser a transparência para preservar legitimidade.
Política de cidade ou política de momento?
A pergunta que fica é simples e profunda: esse modelo permanecerá independentemente de quem esteja no Executivo?
Se for mantido como prática institucional contínua, consolidar-se-á como política de planejamento estruturante da cidade. Se sua intensidade estiver vinculada ao alinhamento político do momento, o tempo fará a leitura.
A história administrativa de um município é construída pela coerência entre discurso, prática e permanência.
Conclusão
O modelo implementado amplia a capacidade técnica e estratégica de Pato Branco. Ele acelera projetos, aumenta competitividade na captação de recursos e potencializa obras estruturantes.
Ao mesmo tempo, maturidade institucional exige transparência, divisão clara de méritos e equilíbrio entre cooperação e autonomia pública.
O debate não é contra o projeto. É a favor de sua institucionalização.
Porque desenvolvimento consistente não depende apenas de projetos prontos, depende de estabilidade, responsabilidade pública e confiança social contínua.
