A divulgação de gravações de áudio atribuídas a pessoas com cargos de confiança e trânsito político dentro da Sanepar abriu um novo e sensível capítulo no cenário político paranaense. O conteúdo, que circula publicamente desde a última semana, sugere a existência de um mecanismo informal de arrecadação de recursos financeiros envolvendo servidores e estruturas de estatais, com possível destinação a campanhas eleitorais vinculadas ao grupo político do governador Ratinho Junior e do secretário estadual Guto Silva.
Até o momento, os áudios não passaram por perícia técnica, não tiveram autenticidade oficialmente confirmada e não foram validados por autoridades competentes. Ainda assim, o teor das conversas, os valores mencionados e a forma como os fatos são narrados geraram forte repercussão política e motivaram pedidos públicos de apuração por órgãos de controle.
O que dizem os áudios: valores, método e hierarquia
As gravações revelam diálogos atribuídos a servidores e agentes políticos que descrevem, em detalhes, um suposto modelo de arrecadação interna, com valores fixos, divisão de responsabilidades e vinculação direta a cargos ocupados dentro da estatal.
Em um dos trechos mais sensíveis, um interlocutor afirma:
“Se você colocar no processo, eles verificam a quantidade de depósitos de R$ 5.000 que caiu na conta do partido.”
Na sequência, o mesmo diálogo atribui ao então presidente da Sanepar e tesoureiro de campanha, Cláudio Stábile, o aval para a prática:
“O Claudio deu total aval para que os gerentes comprassem, que os GGs repassassem, os diretores.”
Outro ponto de destaque é a associação direta entre a arrecadação e o pagamento do PPR (Programa de Participação nos Resultados) aos funcionários da companhia, em período posterior às eleições:
“Foi depois da eleição. No ano seguinte veio o PPR, e como já sabiam que todo mundo ia receber dinheiro, fizeram isso para pegar dinheiro do povo.”
O diálogo ainda menciona que os pagamentos teriam sido estruturados de forma a evitar identificação da origem dos recursos:
“Eles não deixaram a gente identificar o pagamento.”
Dívida milionária de campanha e pressão sobre estatais
Outro áudio amplia o alcance da suspeita ao mencionar um rombo eleitoral estimado em R$ 4 milhões, supostamente relacionado a campanha majoritária, e descreve a busca por recursos dentro de estatais estratégicas do Paraná.
“Os caras estão devendo quatro milhões da campanha. Estão tentando angariar para todo lado. Me pediram vinte e cinco.”
No mesmo diálogo, o interlocutor afirma que os alvos prioritários da arrecadação seriam empresas públicas, citando nominalmente a Sanepar, a Copel e a Cohapar:
“Os caras estão vindo babando em cima de Sanepar, Copel e Cohapar. Eles sabem o salário de todo mundo.”
Há ainda menções explícitas ao receio de repercussão política e criminal, com frases que indicam consciência da gravidade do que estava sendo discutido:
“Isso dá um B.O. da p***.”
“Não pode falar isso no telefone.”
“Tem que morrer entre nós.”
Tentativas de blindagem e ocultação de nomes
Um terceiro áudio chama atenção por revelar orientações explícitas para evitar a vinculação direta de autoridades ao esquema narrado, especialmente quando há risco de exposição.
“Eu nunca pude usar o nome do Guto nem do Jaime para nada.”
“Fala que isso aqui era coisa minha, que eu pedi emprestado.”
O diálogo demonstra preocupação com mensagens escritas que citariam nomes de figuras públicas e orienta que tais referências sejam negadas ou desmentidas, em uma tentativa clara de desvinculação política posterior.
Análise técnica e jurídica do conteúdo
Ainda que o material careça de validação pericial, o conteúdo narrado, se confirmado, pode configurar uma série de irregularidades graves, entre elas:
No âmbito eleitoral: indícios de financiamento irregular de campanha, possível caixa dois e abuso de poder econômico.
No âmbito administrativo: desvio de finalidade, violação aos princípios da legalidade, moralidade e impessoalidade, e uso indevido da estrutura de estatais.
No âmbito penal (em tese): possíveis enquadramentos que dependeriam de prova técnica, como concussão, associação criminosa ou peculato indireto.
No âmbito trabalhista: eventual apropriação ou coação sobre verbas de natureza salarial, como o PPR, com potencial dano coletivo aos empregados.
Se confirmados, os fatos podem configurar financiamento irregular de campanha, abuso de poder político e econômico, desvio de finalidade administrativa e possível apropriação indevida de verbas trabalhistas, além de impactos severos sobre a governança de uma estatal de capital aberto.
Silêncio oficial e expectativa de apuração
Até o fechamento desta matéria, a Sanepar, o Governo do Estado e os demais citados não se manifestaram oficialmente sobre o teor das gravações. Nos bastidores, o episódio é tratado como sensível, especialmente por envolver uma estatal de capital aberto e ocorrer em meio às articulações políticas para o ciclo eleitoral de 2026.
A expectativa é que o material seja analisado por órgãos como Ministério Público, Tribunal de Contas e, no campo regulatório, pela Comissão de Valores Mobiliários, considerando os impactos potenciais sobre governança, compliance e transparência da companhia.
Enquanto não houver confirmação técnica ou manifestação oficial, os fatos permanecem no campo das alegações sob apuração, mas o conteúdo dos áudios, pela riqueza de detalhes, valores mencionados e demonstrações explícitas de consciência do risco, reforça a necessidade de investigação rigorosa e independente, em defesa do interesse público e da integridade das instituições.
Por Gustavo, Portal Verdades
Áudios:
