Um conjunto de gravações atribuídas a Fabrício Monteiro Kleinibing reúne conversas relacionadas ao ambiente político de Pato Branco durante e depois das eleições municipais de 2024. No trecho de maior interesse público, uma voz atribuída a Fabrício utiliza a palavra “esquema” ao falar sobre a empresa de M. S., menciona a possibilidade de um cargo e, em seguida, sugere tentar fazer com que a Prefeitura adquirisse produtos comercializados pelo interlocutor.
Em outra gravação relacionada ao mesmo assunto, a voz esclarece que a ideia envolvendo os produtos teria partido dela própria, e não do então prefeito eleito Géri Dutra. No mesmo diálogo, porém, relaciona a possibilidade à entrada de dinheiro para ajudar M. S. depois da campanha e afirma que “um contratinho aí pra 4 anos não é pouca coisa”.
Há ainda uma gravação sobre outro tema em que a mesma voz atribuída a Fabrício diz que irá “bater de frente o resto da minha vida” com aquilo que chama de “esse agro”. Como o arquivo disponível não contém toda a conversa que antecedeu essa declaração, a reportagem não afirma que a frase tenha sido dirigida ao agronegócio como um todo.
O material não ficou restrito à circulação em grupos de mensagens. Segundo o conjunto documental e as mídias analisadas pelo Portal Verdades, gravações relacionadas aos fatos foram encaminhadas por M. S. às autoridades eleitorais. Documentos oficiais mostram que o Ministério Público Eleitoral requisitou a instauração de inquérito policial e que, posteriormente, a Polícia Federal determinou o envio do pendrive apresentado por M. S. à Promotoria, além do vídeo de sua oitiva.
Isso, entretanto, não significa que a Polícia Federal tenha autenticado a voz atribuída a Fabrício, confirmado o conteúdo das acusações ou atribuído ao candidato a prática de qualquer crime. O Portal também não recebeu laudo pericial de identificação vocal. Por essa razão, toda referência à autoria das gravações é feita como atribuição, e não como conclusão técnica definitiva.
Fabrício disputa as eleições de 2026 pelo PDT
Em seu material eleitoral de 2026, Fabrício Monteiro Kleinibing se apresenta como advogado e candidato a deputado estadual pelo PDT, além de destacar sua atuação política em Pato Branco.
Parte das gravações analisadas nesta reportagem remonta justamente ao período em que o PDT participava da articulação política das eleições municipais de 2024.
“Conseguir, cara, um esquema com a tua empresa”
A principal gravação analisada pela reportagem é situada no período posterior à eleição municipal. O outro interlocutor será identificado nesta matéria apenas pelas iniciais M. S.
No início do arquivo, a voz atribuída a Fabrício diz ter conversado com Géri e comenta que a composição da futura administração ainda estava em definição. A conversa passa pela possibilidade de espaço político para integrantes do PDT e pela quantidade limitada de cargos que, segundo quem fala, poderiam estar disponíveis.
É nesse contexto que surge a expressão que chama atenção:
A expressão “esquema” é reproduzida entre aspas porque aparece dessa forma na gravação. O Portal Verdades não atribui ao termo, por conta própria, significado criminoso. A relevância jornalística está no contexto da conversa e naquilo que é sugerido na sequência.
Conversa compara cargo público com eventual fornecimento à Prefeitura
Depois da menção ao “esquema”, a voz atribuída a Fabrício fala sobre a possibilidade de M. S. ocupar um cargo público com remuneração aproximada de R$ 2,5 mil a R$ 3 mil mensais.
Logo depois, apresenta outra alternativa:
A voz também orienta o interlocutor a manter a empresa e o CNPJ regularizados, dizendo que a situação precisaria estar “redondinha” para que eventualmente algo pudesse ser buscado no ano seguinte.
Em seguida, compara o valor de um cargo público com a possibilidade de realizar vendas maiores:
Os valores de R$ 50 mil e R$ 100 mil aparecem no áudio como exemplos hipotéticos. O material analisado pelo Portal não demonstra que essas vendas tenham efetivamente ocorrido nem que a empresa tenha sido contratada pela Prefeitura em decorrência dessa conversa.
Outra gravação diz que a ideia não teria partido de Géri
O conjunto contém uma segunda fala importante para delimitar responsabilidades. Ao voltar ao assunto dos produtos, a voz atribuída a Fabrício afirma expressamente que a sugestão teria partido dela própria:
Assim, os arquivos analisados não dão base para afirmar que Géri Dutra tenha proposto a compra, utilizado a expressão “esquema” ou autorizado qualquer contratação. Ao contrário, o próprio conteúdo atribuído a Fabrício faz essa distinção.
Na continuação da conversa, porém, a voz explica por que considerava a alternativa interessante para M. S.:
Logo depois, acrescenta:
Também nesse ponto é necessário separar a fala registrada de um fato efetivamente ocorrido. O áudio mostra uma hipótese sendo discutida, mas não comprova que tenha existido contrato, negociação formal com a Prefeitura, direcionamento ou autorização de qualquer agente público.
Gravação menciona contratação direta
Em determinado momento, a voz afirma que “até 14 mil tem dispensa de licitação” enquanto trata da possibilidade de aquisição dos produtos.
O valor citado não correspondia ao limite federal vigente em 2024 para outros serviços e compras. Naquele ano, o Decreto Federal nº 11.871/2023 havia atualizado o limite previsto no artigo 75, inciso II, da Lei nº 14.133/2021 para R$ 59.906,02.
A dispensa por valor, entretanto, não significa que a Administração Pública possa escolher livremente qualquer fornecedor. A contratação direta também exige procedimento formal, justificativa da necessidade, requisitos de habilitação, justificativa de preço e motivação para a escolha do contratado.
A reportagem não encontrou, no conjunto de materiais analisados, comprovação de que alguma contratação pública mencionada nas conversas tenha efetivamente ocorrido ou de que procedimento administrativo tenha sido direcionado.
Arquivos mostram interlocução que vinha desde a campanha
A conversa posterior à eleição não aparece isoladamente. Outros áudios atribuídos ao mesmo interlocutor registram diálogos mantidos com M. S. durante a campanha municipal de 2024, envolvendo despesas eleitorais, disponibilidade de recursos e valores destinados a candidaturas.
Em um dos arquivos, a voz orienta M. S. sobre a formalização de contrato para trabalho eleitoral, explicando que uma despesa devidamente documentada poderia ser utilizada na prestação de contas caso houvesse recursos partidários disponíveis.
Em outras conversas, aparecem referências a valores e ao responsável pelo financeiro da campanha, que, segundo as próprias gravações, mantinha uma planilha com pagamentos.
Em determinado trecho, a voz atribuída a Fabrício afirma que teria conseguido colocar M. S. em determinado patamar de recursos e pede discrição:
A frase, por si só, não permite concluir que os valores fossem irregulares. Campanhas eleitorais podem receber, distribuir e utilizar recursos dentro das regras legais e contábeis. Qualquer conclusão sobre eventual irregularidade dependeria da análise da origem, destinação e prestação de contas desses valores.
Antes da eleição, gravação já mencionava compra de mercadorias de M. S.
Em outro arquivo, ainda durante a campanha, a empresa e os produtos de M. S. aparecem durante uma conversa sobre dificuldades financeiras.
Nesse primeiro contexto, a gravação indica uma eventual compra pelo próprio interlocutor, inclusive com referência à falta de espaço para armazenar os produtos. É somente depois da eleição que aparece, nos áudios recebidos, a fala sobre tentar fazer com que a Prefeitura adquirisse mercadorias da empresa.
Conversas escritas acompanham sequência de arquivos de voz
O Portal Verdades também recebeu capturas de tela de uma conversa de WhatsApp na qual o contato aparece salvo como “Fabrício PDT” e acompanhado de fotografia de perfil.
Os registros mostram mensagens escritas intercaladas com arquivos de áudio e referências a assuntos semelhantes aos tratados nas gravações, como campanha, valores e o responsável pelo setor financeiro.
Em um dos prints, o contato informa: “Amanhã vai R$ 4.350,00. Totalizando os 5 mil que todos receberão”. Em outro momento, há questionamento sobre se M. S. teria recebido R$ 17 mil ou R$ 13 mil.
Esses prints ajudam a contextualizar o conjunto, mas possuem limites. O nome salvo em um aparelho de WhatsApp não constitui, sozinho, prova técnica da identidade da pessoa do outro lado da conversa. Da mesma forma, fotografia de perfil e continuidade de mensagens podem reforçar o contexto, mas não substituem perícia dos arquivos originais.
Gravação fala em participação futura e pede cautela para não “queimar o filme”
Outro arquivo atribuído a Fabrício registra conversa posterior ao pleito sobre eventual participação de integrantes do PDT na futura administração.
A voz diz não poder garantir nomeações e recomenda que M. S. aguarde as definições políticas antes de tomar alguma atitude.
A frase registra uma avaliação política feita por quem fala no áudio. Isoladamente, ela não comprova promessa de cargo, oferta de vantagem ou condicionamento ilícito.
Material foi levado às autoridades e entrou no contexto de inquérito sobre a eleição de 2024
As gravações analisadas nesta reportagem também aparecem no contexto de uma apuração oficial relacionada às eleições municipais de Pato Branco em 2024.
Segundo o conjunto documental e as mídias aos quais o Portal Verdades teve acesso, M. S. encaminhou às autoridades material que incluía gravações relacionadas aos fatos narrados. A apuração passou inicialmente pelo Ministério Público Eleitoral.
Em 7 de fevereiro de 2025, a Promotoria Eleitoral da 73ª Zona Eleitoral requisitou à Polícia Federal a instauração de inquérito policial para apuração de eventuais crimes relacionados aos fatos comunicados. O ofício mencionava, em tese, fatos enquadráveis no artigo 350 do Código Eleitoral, associação criminosa, lavagem de dinheiro e outros delitos eleitorais, sempre condicionados à análise concreta das condutas dos envolvidos.
Posteriormente, a Polícia Federal instaurou o Inquérito Policial nº 2025.0017980-DPF/GPB/PR para apurar os fatos relacionados à denúncia sobre as eleições municipais de 2024.
| Inquérito policial | 2025.0017980-DPF/GPB/PR |
| Origem | Notícia de Fato relacionada às eleições municipais de 2024 em Pato Branco |
| Órgão requisitante | Ministério Público Eleitoral — 73ª Zona Eleitoral |
| Comunicante dos fatos | M. S. |
| Material requisitado pela PF | Vídeo da oitiva de M. S. e pendrive apresentado por ele ao Ministério Público Eleitoral |
| Natureza da apuração | Possíveis crimes eleitorais e outros ilícitos mencionados na notícia de fato, ainda sujeitos à investigação |
A portaria da Polícia Federal determinou expressamente que a Promotoria encaminhasse o vídeo da oitiva de M. S. e o pendrive apresentado por ele ao Ministério Público Eleitoral. Segundo o conjunto de mídias analisado pelo Portal, as gravações abordadas nesta reportagem estavam entre os materiais levados às autoridades.
É importante distinguir as duas informações: o vínculo entre o pendrive entregue por M. S. e o inquérito é registrado expressamente nos documentos oficiais; a identificação das gravações reproduzidas nesta reportagem como integrantes do material entregue decorre do conjunto de arquivos ao qual o Portal teve acesso.
O fato de uma mídia ter sido apresentada ao Ministério Público e encaminhada para uma investigação da Polícia Federal não significa que seu conteúdo tenha sido considerado verdadeiro, periciado ou suficiente para comprovar qualquer crime.
Da mesma forma, os documentos analisados não permitem afirmar que Fabrício Kleinibing tenha sido indiciado, denunciado criminalmente ou responsabilizado pelos fatos investigados. A portaria consultada descreve o objeto geral da investigação e não individualiza, no trecho analisado, eventual responsabilidade criminal de Fabrício.
“Esse agro, eu vou bater de frente o resto da minha vida”
Em uma gravação distinta, atribuída a Fabrício, a voz faz uma declaração envolvendo aquilo que identifica como “esse agro”:
Na sequência, a voz afirma que sempre iria “bater de frente com essas pessoas” e que, se pensassem daquela maneira, seriam seus “inimigos” politicamente.
O conteúdo disponibilizado ao Portal não inclui todo o diálogo que antecede essa frase. Por isso, não é possível estabelecer com segurança a quem exatamente a expressão “esse agro” se referia.
A reportagem, portanto, não afirma que Fabrício tenha declarado oposição ao agronegócio, aos produtores rurais ou ao setor como um todo. O que o arquivo permite registrar é que a voz atribuída ao candidato afirmou que iria “bater de frente” com aquilo que, naquele diálogo, chamou de “esse agro”.
Conjunto amplia o contexto, mas não substitui identificação pericial de voz
A reportagem teve acesso a diferentes gravações e capturas de tela que apresentam continuidade temática, repetição de personagens, referências a fatos da campanha e mensagens escritas intercaladas com arquivos de voz.
Esse conjunto fornece elementos contextuais que podem reforçar a atribuição dos materiais, mas não equivale a uma perícia técnica de voz. O Portal Verdades não recebeu laudo que certifique a identidade vocal de quem aparece nas gravações.
Por essa razão, inclusive no título, o conteúdo é apresentado como gravações e áudios atribuídos a Fabrício Kleinibing.
Os arquivos recebidos contêm uma voz atribuída a Fabrício que utiliza a palavra “esquema”, fala em cargo público, menciona tentar fazer com que a Prefeitura adquirisse produtos de uma empresa, orienta sobre a regularidade do CNPJ, cita vendas hipotéticas de R$ 50 mil ou R$ 100 mil e, em outro trecho, menciona um possível “contratinho” de quatro anos.
O próprio material registra ainda que a ideia envolvendo os produtos teria partido de quem fala na gravação, e não de Géri Dutra.
Documentos oficiais também confirmam que material apresentado por M. S. ao Ministério Público Eleitoral foi requisitado pela Polícia Federal no âmbito de inquérito instaurado para apurar fatos relacionados às eleições municipais de 2024.
O Portal Verdades não afirma que houve um “esquema criminoso”, corrupção, fraude em licitação ou direcionamento de contratação. Também não afirma que a Prefeitura tenha comprado os produtos, que um contrato tenha sido assinado ou que Géri Dutra tenha autorizado qualquer proposta.
A reportagem também não afirma que a Polícia Federal tenha autenticado as gravações, confirmado seu conteúdo ou responsabilizado Fabrício Kleinibing pelos crimes que eram objeto geral da investigação.
A entrega das mídias às autoridades representa a apresentação de elementos para apuração. A avaliação de autenticidade, relevância probatória e eventual responsabilidade cabe aos órgãos responsáveis e, quando for o caso, ao Poder Judiciário.
Contexto das falas ainda pode ser esclarecido
As gravações deixam perguntas objetivas: em que sentido foi usada a expressão “esquema”? Alguma conversa posterior ocorreu para apresentar a empresa de M. S. à Prefeitura? Houve oferta ou aquisição de produtos? O que significava a referência a um “contratinho” de quatro anos? E a quem exatamente se referia a expressão “esse agro”?
Também permanece a necessidade de distinguir as falas e hipóteses registradas nos áudios daquilo que efetivamente ocorreu ou deixou de ocorrer na administração pública e na campanha eleitoral.
O Portal Verdades mantém espaço aberto para que Fabrício Kleinibing e os demais citados apresentem sua versão, esclareçam o contexto das gravações ou encaminhem documentos relacionados aos fatos abordados. Qualquer manifestação relevante poderá ser incorporada à matéria.
Até que existam elementos conclusivos ou eventual decisão das autoridades competentes, os fatos devem ser tratados dentro dos limites dos materiais disponíveis, preservando-se a presunção de inocência, o contraditório e a ampla defesa.
Ouça o material utilizado na apuração
Além dos recortes temáticos destacados ao longo da reportagem, o Portal Verdades disponibiliza abaixo o arquivo que reúne as gravações utilizadas nesta apuração, permitindo que o leitor tenha acesso a um contexto mais amplo das falas.
Fontes: gravações e capturas de tela analisadas pelo Portal Verdades; autos do Inquérito Policial nº 2025.0017980-DPF/GPB/PR; Ministério Público Eleitoral da 73ª Zona Eleitoral; material eleitoral de Fabrício Kleinibing; Lei nº 14.133/2021 e Decreto Federal nº 11.871/2023.
Por Gustavo - Portal Verdades / Fonte: Polícia Federal, Ministério Público Eleitoral, legislação federal e materiais analisados pelo Portal Verdades
