Após a publicação da reportagem do Portal Verdades revelando que um servidor da Prefeitura de Pato Branco continuava recebendo salário mesmo estando preso, condenado e com o cargo extinto por sentença judicial, novas informações chegaram à redação. E o que descobrimos é ainda mais grave.
Um servidor que nos procurou anonimamente, relatando sofrer perseguição da própria gestão, revelou um detalhe que os documentos confirmam: além de continuar na folha de pagamento, esse servidor subiu quatro níveis na tabela de cargos e salários da Prefeitura por promoção por mérito. Sem trabalhar. Sem aparecer. Preso em regime fechado.
Servidores da Prefeitura de Pato Branco reclamam há anos dos critérios de progressão funcional. Muitos relatam avaliações injustas, perseguição política e promoções negadas sem justificativa clara.
Enquanto isso, em 22 de abril de 2026, o prefeito Géri Dutra assinou uma portaria promovendo por mérito um servidor que estava preso desde setembro de 2025, condenado a mais de dois anos em regime fechado, com o cargo extinto por ordem judicial. Quatro níveis de promoção. Sem trabalhar um único dia.
O critério que ninguém entende
A Portaria nº 349/2026, publicada no Diário Oficial dos Municípios do Paraná em 23 de abril de 2026, traz o resultado da Avaliação de Desempenho 2025 da Prefeitura de Pato Branco. São centenas de servidores listados, motoristas, enfermeiros, garis, merendeiras, agentes administrativos, cada um com o número de níveis que avançou na tabela salarial.
Para subir de nível, o servidor precisa ser avaliado. Alguém na Prefeitura precisa preencher e assinar essa avaliação, atestando que o desempenho foi satisfatório. A comissão analisa. O RH processa. E o prefeito assina a portaria.
Esse processo foi seguido normalmente para o servidor preso. Alguém avaliou seu desempenho como satisfatório. A comissão aprovou. O RH processou. E o prefeito Géri Dutra assinou, quatro meses depois da sentença que extinguiu o cargo desse servidor.
O que precisou acontecer para isso ser possível
A promoção por mérito não é automática. Ela depende de uma cadeia de decisões administrativas que, neste caso, produziu um resultado juridicamente impossível, e moralmente inaceitável.
preenchida positiva
desempenho satisfatório
com o servidor preso
aprovada
aprovou sem verificar
a situação jurídica
processou
processou sem verificar
a sentença judicial
assinou
em 22/04/2026 —
4 meses após o
trânsito em julgado
Em cada uma dessas etapas havia a obrigação de verificar a situação funcional do servidor. Em nenhuma delas isso foi feito, ou se foi feito, foi ignorado. O resultado: uma avaliação de desempenho positiva para quem estava numa cela de prisão preventiva durante boa parte do ano avaliado.
A assinatura que não pode ser ignorada
A Portaria nº 349/2026 foi assinada digitalmente pelo prefeito Géri Dutra em 22 de abril de 2026. Não é uma portaria de rotina secundária, é o ato formal que concede promoção funcional a centenas de servidores municipais e produz efeitos financeiros diretos no erário.
Na mesma portaria que promoveu esse servidor, o prefeito promoveu médicos, enfermeiros, motoristas, educadores, pessoas que trabalharam o ano inteiro e passaram por avaliação. E no meio delas, na página 10 do documento, o nome de um homem que estava preso.
A portaria tem efeitos retroativos a 1º de março de 2026. Isso significa que o salário ilegalmente pago naquele mês foi calculado com base na faixa salarial majorada pela promoção, aumentando ainda mais o dano ao erário público já noticiado pelo Portal Verdades.
As perguntas que ficam sem resposta
Quem assinou a avaliação de desempenho positiva desse servidor? Qual chefia imediata ou membro da comissão de avaliação atestou formalmente que seu desempenho em 2025 foi satisfatório, ano em que ele estava preso desde setembro?
Isso não é uma pergunta retórica. É uma pergunta com resposta registrada em papel, assinada por algum agente público da Prefeitura de Pato Branco. E essa assinatura pode configurar falsidade ideológica em documento público, crime previsto no artigo 299 do Código Penal.
O Portal Verdades encaminhou questionamentos à Prefeitura de Pato Branco e ao prefeito Géri Dutra. Até a publicação desta matéria, não houve resposta.
O símbolo de uma gestão
Servidores que trabalham reclamam de critérios obscuros. Servidores que foram avaliados negativamente relatam perseguição. E o servidor que não apareceu um único dia, preso, condenado, sem cargo, sobe quatro degraus na tabela salarial com a assinatura do prefeito.
Isso não é burocracia. Não é descuido. Não é coincidência. É o retrato de uma gestão que define, na prática, quem merece ser premiado, independentemente do que a lei, a Justiça e o bom senso determinam.
O Portal Verdades já havia formalizado denúncia ao Ministério Público do Estado do Paraná pela manutenção irregular do servidor na folha de pagamento. Com a descoberta da Portaria nº 349/2026, um adendo foi encaminhado à mesma Promotoria, incluindo o pedido de investigação sobre uma possivel avaliação de desempenho fraudulenta e a responsabilidade dos signatários.
Pato Branco merece uma gestão que respeite quem trabalha. E que não recompense quem está na cadeia.

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