A saída do prefeito de Pato Branco, Géri Dutra, do Partido Liberal (PL), abriu um debate que vai muito além de uma simples mudança de sigla. O movimento, por si só, já é relevante, mas o que realmente chama atenção é o cenário que se forma a partir dele, especialmente pelo que ainda não foi dito de forma clara à população.
Durante sua manifestação pública, o prefeito adotou um discurso baseado na gratidão e no alinhamento político com o governador Ratinho Júnior e com o deputado Fernando Giacobo, deixando evidente que seguirá esse grupo e que a definição do novo partido ainda será construída dentro dessa articulação. Do ponto de vista político, trata-se de uma fala estratégica, que evita conflitos diretos e mantém margem de manobra. No entanto, ao mesmo tempo em que se posiciona em relação a pessoas e alianças, o prefeito evita um ponto central: dizer claramente qual é o seu posicionamento ideológico.
E é justamente essa ausência que começa a gerar desconforto.
Isso porque, nos bastidores políticos e entre pessoas que acompanham sua trajetória, existe há muito tempo uma percepção clara de que suas convicções pessoais sempre estiveram mais próximas da esquerda, com afinidade ao campo político do PT, algo que, até hoje, nunca foi assumido publicamente pelo prefeito. Essa percepção também é frequentemente associada à sua formação acadêmica e à sua atuação como professor de universidade federal, ambiente que, em sua grande maioria, costuma ter um viés político mais inclinado à esquerda, o que reforça ainda mais esse entendimento entre aqueles que acompanham sua trajetória.
O que chama atenção é o contraste evidente entre diferentes momentos da sua trajetória política. Houve disposição para assumir publicamente o PL, um partido com posicionamento de direita bem definido, no momento em que isso era decisivo para viabilizar sua candidatura e construir sua base eleitoral. Foi dentro dessa estrutura que ele se apresentou à população, consolidou alianças e conquistou a vitória nas urnas. Naquele cenário, houve definição, houve lado, houve posicionamento.
Agora, fora do período eleitoral e já no exercício do cargo, o que se observa é um movimento diferente. A saída do partido acontece, mas não vem acompanhada da mesma clareza ideológica. Não há, até o momento, uma explicação direta sobre qual é, de fato, o seu alinhamento político.
E isso gera desconforto em dois sentidos.
Para a direita, fica a sensação de que um prefeito eleito por um partido com posicionamento claro utilizou aquela estrutura como base eleitoral e, após alcançar o objetivo, optou por seguir outro caminho.
Já para a esquerda, o questionamento é outro, mas igualmente incômodo: se existe, de fato, uma afinidade com esse campo político, como muitos apontam nos bastidores, por que isso nunca foi assumido de forma transparente diante da população?
Esse cenário se torna ainda mais relevante quando se observa o comportamento do eleitorado local. No último cenário presidencial, Jair Bolsonaro recebeu 31.260 votos em Pato Branco, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva obteve 19.717 votos. Ou seja, há uma maioria alinhada a um campo político, mas também existe uma parcela expressiva da população que se identifica com outro. Isso demonstra que o município não é homogêneo e que há espaço para posicionamentos claros, desde que sejam verdadeiros.
E é justamente nesse ponto que a discussão se aprofunda.
Se houve coragem para assumir o PL em um momento decisivo, por que agora não há a mesma clareza para assumir um posicionamento ideológico próprio? Se existe, de fato, um alinhamento mais próximo da esquerda, com ideias ligadas ao PT, por que isso não é dito de forma direta?
A pergunta que começa a circular, ainda que de forma incômoda, é inevitável: existe receio em assumir isso publicamente? Existe cálculo político? Ou existe a tentativa de evitar desgaste com parte do eleitorado? Existe vergonha de assumir?
E é importante deixar algo muito claro: não há absolutamente nenhum problema em ser de direita, de esquerda ou de centro. O que não soa bem, e o que gera desconforto, é a falta de clareza. Porque quando um líder político assume um posicionamento em um momento e evita defini-lo em outro, o que se transmite não é equilíbrio, é dúvida.
No fim, a população não espera um prefeito que agrade todos os lados. Isso é impossível. O que se espera é coerência, transparência e, acima de tudo, sinceridade. Se há convicções, que elas sejam apresentadas. Se há alinhamento, que ele seja assumido.
Porque, na política, mudar de partido pode até ser estratégia. Mas não dizer claramente de que lado se está, isso deixa de ser estratégia e passa a ser uma questão de coerência.
E é justamente essa coerência que começa a ser cobrada.
Por Gustavo – Portal Verdades
